Suprema

Por: Sônia Machiavelli

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Ruth Bader Ginsburg, 85, judia norte-americana, apareceu nos noticiários de TV há um mês, subindo as escadas do edifício da Suprema Corte, em Washington, para retomar suas funções de juíza. Ela se afastara por algumas semanas, depois de fraturar três costelas numa queda. O clamor popular, principalmente dos jovens, que lindo!, lhe conferiu energia para voltar ao trabalho.

 Segunda confirmada no cargo pelo Senado, num tempo em que a instância máxima da justiça era espaço reservado apenas aos homens, Ruth inspirou um filme. Dirigido por Mimi Leder, a obra faz jus à vida da pioneira, assim definida a que vence grandes obstáculos e com isso abre caminhos até então intransitáveis. Como os que se mostravam impeditivos às mulheres relegadas a segundo plano num país hostil às liberdades femininas.

A esse respeito, que se atente para o espírito patriarcal da sociedade norte-americana dos anos 50, tão bem expresso no voto de um ministro: “A timidez e a delicadeza naturais e apropriadas que caracterizam o sexo feminino tornam as mulheres, evidentemente, inapropriadas para muitas ocupações da vida civil. O supremo destino e missão da mulher são os de assumir os ofícios nobres e benignos de mulher e mãe. Essa é a lei do Criador”. A fala, que o espectador acompanha no filme, foi transcrita do voto real de um juiz que rejeitou com tais termos o pedido de uma das primeiras advogadas dos EUA para exercer na Corte a defesa de seus clientes.

O enredo obedece a uma cronologia que tem início em cena inesquecível, mostrando a jovem Ruth caminhando junto a dezenas de rapazes para aquela que será sua primeira aula do curso de direito em Harvard. No meio dos ternos escuros, a saia azul faz movimentos sutis que contrastam com as rígidas passadas masculinas. A atriz que interpreta Ruth é Felicity Jones; o marido Marty é vivido por Armie Hammer. Advogado de um grande escritório, ele participa da criação dos filhos, divide tarefas domésticas, admira a inteligência e preparo da esposa. Mas ela, apesar dos tantos atributos, e do irrestrito apoio dele, não consegue atuar na área porque “as esposas poderiam sentir ciúmes da presença de uma mulher entre os profissionais”, como lhe dizem. Vai então lecionar por um tempo, mas retorna ao direito e, vencendo insegurança e pressões, defende uma causa complicada que pela inflexão surpreendente entra para os anais da jurisprudência.

Abrangendo um período de vinte anos, o longa mostra a trajetória da aluna, mulher, mãe e advogada. Como profissional e ser humano, ela percebe em andamento na sociedade uma transformação de mentalidade, deflagradora de mudanças sobre as quais seria urgente legislar. Mas, que pena, não mostra as frases espirituosas dela, como esta que aparece em camisetas usadas atualmente por seu público que é bem grande e a aplaude como celebridade pop: “A fronteira de gênero não procura manter a mulher em pedestal, mas sim em gaiola”.

“Suprema”, o nome do filme, tanto pode ser referência à Corte como a Ruth. A leitura que empreendi me conduziu à segunda opção.
 

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