Começo da vida

Por: Angela Gasparetto

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Começo a acordar com a sensação de dezembro. Isso acontece sempre nessa época.

Sensação é algo vago. Difícil de descrever. Vou tentar.

É um sentimento de bem-estar, mesclado à felicidade gratuita proveniente desse clima de verão incandescente, dessas manhãs recheadas de boas perspectivas. E às vezes nem de tão de boas assim, mas é essa aura de fim de ano, fim de festa, e recomeços.

Eu sei, é vago, mas é intenso. Então, gosto divagar sobre o tempo, esse tema tão recorrente para mim.

E o espelho do tempo mostra que envelheci. Não sei se bem. Espero ficar uma bela ruína, como dizia Machado de Assis sobre suas personagens maduras.

E mostra que atualmente prefiro trabalhar menos, apesar do acúmulo que por ventura eu mesma crie. Que o vagar se tornou meu verbo principal.

Que algumas divagações sem mais porquês depois do alongamento na academia, desacelera o meu dia e faz-me mais feliz que correr de volta para o trabalho como seria de praxe.

O espelho do tempo mostra que estou preferindo assistir a filmes ou séries sobre amor, superação ou recomeços, do que os de tramas violentas e sem sentindo, porque a vida já é por demais assustadora...

Mostra que embora tenha traçado algumas metas para esse ano, a maioria está saindo diferente do planejado, mas estranhamente mais rica. Dessa riqueza proporcionada pelo ofício do aprendizado.

Que dá para parar o urgente sim, só para dar uma volta com minha cachorrinha e apreciar o seu êxtase em pelo, pois ela me ensina que uma esparramada na grama vale muito mais que belas grades fantasiadas de bem querer.

Que nada é para sempre mesmo, mas o que é de verdade é perene.

O espelho do tempo mostra que não há mais tempo para não voltar e fazer o certo. Aquele certo desprovido de preconceito ou de verdades prontas. Mas aquele que é devido, que te pertence, ou ao outro. Que dá sim para esquecer algumas mágoas, e ver que assim conseguimos ser maiores, apesar das sequelas.

Até porque chega um tempo em que já não queremos mais fingir quem nós somos, e nem abdicar da paz que por ventura almejamos. Não conseguimos mais deixar de ver além do círculo de giz, mas só queremos manter a nossa sanidade a salvo. E é nesse momento de profunda clareza que percebemos que cabe somente a nós regar nossos desertos, ou até mesmo desistir de alguma planta mais rebelde, porque já não haverá água suficiente para fazê-la florescer.

De posse dessa clareza, talvez caminhemos mais solitários, mas profundamente acompanhados desse eu que nos conforta e nos redime.


 

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