Emulsão Scott

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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Férias? O destino era Uberlândia. Afinal era onde os avós maternos moravam, possibilidade e sinônimo de muita brincadeira, farra com os primos, histórias de vovó, encontro com amigas e parentes distantes e alegres. A mesmice do local não era inconveniente, pelo contrário era muito bem-vinda. A viagem em si já era divertida. Saíamos cedinho, perto das cinco e meia da manhã, na van do Sr. Guido, motorista de taxi, único veículo onde caberíamos todos os cinco – só papai ficava - com destino a Igarapava, que era onde pegávamos o trem para o destino final. As quase dez horas de viagem não nos assustavam. De Franca a Igarapava, no mínimo três, tempo que aumentava quando chovia. E atolávamos. Não havia pavimentação, era chão batido e, com o tráfego de outros carros, carros de boi, a terra se transformava em barro e olha a gente esperando dentro do carro fechado, desenhando nos vidros embaçados. De repente o trator surgia, tirava a gente do enguiço e seguíamos viagem. Não me lembro de perdermos a conexão com o trem, porque ele só passava por volta das catorze horas da tarde em Igarapava, razão pela qual saíamos tão cedo de casa, sempre que era tempo de chuva. Na estação de Igarapava, o pique-nique . Frango na farofa, pé de moleque, laranja descascada, cocada, guaraná, meu Deus! Depois, era escovar os dentes, lavar as mãos e rosto, sentar no chão, encostar, esperar o trem chegar. E ele chegava. Resfolegando. Entrávamos, virávamos os bancos de frente um para o outro, acomodávamos a tralha e seguíamos. Quando passávamos sobre a ponte de ferro que separa São Paulo de Minas Gerais, mamãe nos mostrava as marcas de bala na estrutura da ponte, de quando houve a Revolução e brigamos com nossos vizinhos. Destas viagens somente temos boas recordações. Quer dizer, a maioria delas é boa e ruim mesmo era voltar para casa. Mas apenas cinco meses e pouco nos separavam da próxima estadia, adorávamos ir para lá. Quando voltávamos, trazíamos doce de leite e melado feito em casa; banana da terra verde dentro de caixa. Coisas gostosas. Pra contrabalançar a gostosura, vinham também seis garrafas de Óleo de Fígado de Bacalhau, que Maurício, farmacêutico casado com Terezinha, filha de tia Zazá, mulher do tio Benedito, preparava na sua farmácia para “os meninos da Clarinha”. Se o gosto do remédio era ruim, ficava pior, com os componentes que ele usava para incrementar. Não cresci um centímetro a mais. Minha irmã não ficou um pixel mais bonita do que era. Ninguém ficou mais inteligente que o previsto. Mas o gosto e o cheiro do Óleo de Fígado permanecem...

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