Laboratório

Por: Sônia Machiavelli

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“Caiu um trein no meu olho direito deisde ontem ”, me disse o homem de pele judiada pelo sol e jeito amistoso, presumíveis 70 anos, piscando muito e tentando recuperar algum conforto com um lenço de pano . Depois de pedir licença, puxou a cadeira, sentou-se ao meu lado na cafeteria asséptica. Ali se ofereciam bolachas doces e salgadas, mais café, com açúcar e sem, para os que, jenunos, tinham esticado pouco antes o braço para colher sangue. Exames de rotina, o dele e o meu, intuímos ambos enquanto a conversa era apenas primeira letra de frase.

Defronte de nós, afixada na parede, a TV exibia noticiário. Entendi então a razão de ele ter escolhido aquele lugar. Queria, como eu, acompanhar as notícias da manhã que começavam. Depois de me dizer que se criara em Guaxupé mas vivia em Franca há trinta anos, o mineiro meticuloso separou duas cream cracker num lado do guardanapo de papel e pousou uma maisena do outro. No centro instalou o copinho de café. Mal havia tomado um gole, viu o filho do presidente na tela. Pedia desculpas por ter ofendido com um AI-5 a democracia do País e ameaçado os brasileiros que, ora vejam só, pudessem discordar das coordenadas da família que tem como inspiração um torturador-mor. Que brilhante! - pensei com meus botões.

O homem ao meu lado parecia na mesma sintonia e disse: “Uai, agora dianta não. Palavra falada é como flecha...” Respeitei o tempo regulamentar da reticência; mas intuindo que ele me desafiava a completar o provérbio chinês, ousei dizer: “...não volta atrás”. Ele meio que sorriu, certificou-se de que guardara a carteira do convênio no bolso da camisa listrada de verdes, e voltando os olhos para mim, completou: “em menino aprendi com pai que em boca fechada não entra mosquito”. E, brilho gaiato no olhar: “Também não sai”.

Segui seu raciocínio: “Mas no caso nem é mosquito; são cobras e lagartos.” Fui tentada a verbalizar um pensamento de Freud, segundo o qual ninguém consegue esconder o que sente porque estamos sempre falando, embora nem sempre com palavras. Falamos até pelos poros. E, muitos, pelos cotovelos. Ele parecia ler minha mente:

_ “Quem havera de pensar que a gente ia escutar isso, hein?”

Respondi que tinha sido melhor o deputado ter falado; assim ficava claro o que pensava e sentia de fato. Ou o meu interlocutor também achava que a palavra seria de prata e o silêncio de ouro? Ele silenciou, ficou pensativo, coçou o queixo mal escanhoado. Então, falou mansamente:

- “ Quer saber? A boca deita pra fora o que existe em abundância no coração.”

Surpresa, perguntei: “- Isso está na Bíblia?” E ele: “Não senhora; é da minha lavra.”

Antes que eu pudesse lhe perguntar se era escritor, ele se levantou, pegou um guarda-chuva que até então eu não vira encostado nas costas da cadeira, disse até logo, me desejou bom dia e, passadas largas e firmes, rumou para a porta de saída do prédio da Unimed.

 

  

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