Apesar de mim

Por: Heloísa Bittar Gimenes

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Todo momento de achar é um perder-se a si próprio.(Clarice Lispector).

Sigo inventando e reinventando; vejo-me sempre fazendo “ligações necessárias” para me manter nessa caminhada, numa estrada invariavelmente incerta.

Primeiro meus pais, depois meus irmãos, familiares, amigos; cada pessoa com quem convivi e ainda convivo, ajudou ou ainda ajuda a formar-me como pessoa. Vou me reconhecendo nos detalhes das minhas palavras, nas nuances das escolhas, na sutileza da minha escuta, na vontade de amar e assim por diante.

O tempo e os fatos funcionam como marcos. Sulcam nosso rosto, lapidam nossa alma. Ora como protagonista, ora como coadjuvante, escrevo histórias. Já percebi que na matemática do Humano, “um mais um não é dois”, sempre sobram restos. Restos estes que me fazem às vezes questionar o livre arbítrio, a fé, minha própria razão, minha existência.

E quanto mais me questiono, menos sei responder. Sinto-me estranha de mim mesma. É olhar para o espelho e perguntar-se: Quem é você? Essa é a história que você planejou viver? E para cada pergunta, outra e outra ... Vejo-me pelo avesso. Apareço justamente onde não pensei, onde não calculei, onde não escolhi.

Lá vai a vida e eu atrás dela. Impossível resgatar o que foi. O incompreensível e desafiador é viver o que será. Quem serei daqui a algum tempo?

Compreendo que muitas perguntas podem trazer confusão e angústia. Talvez seja nas tapeações que vamos arrumando pelo caminho, que achamos sentido para nós mesmos. Tapeações? Sim, pois na realidade o sentido será sempre relativo e provisório, até que se ache outro e outro. Então vamos recheando os dias - disso, daquilo e daquilo outro.

Percurso Vida! Acontece comigo e apesar de mim.

E assim vou me achando nas minhas perdas. Até que um dia a Terra enterre o que o Céu irá desenterrar.


 

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