Aquela capa

Por: Dione Castro

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De tempos em tempos viajávamos para casa de minha avó materna. Como toda tardezinha qualquer na “beira do rio” do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, próximo a sua casa de pau a pique, momento em que a claridade era através de lamparina ou lampião, todos sentavam-se em círculo para prosear, contar causo de confusão, de caça e jogos de truco mineiro da velha Maria de Zé de Mané. Minha mãe e eu estávamos debaixo da árvore grande no quintal da vó Maria. Mamãe sentada no balanço - feito por meu pai - e eu estava em seu confortável colo.

Neste exato recorte de minha história, foi pela primeira vez que pude ver aquele objeto. Era de meu vô Adão, na época falecido. A pinga o havia tirado de sua família. Na verdade, tirou de minha mãe quando ela tinha apenas sete anos. Uma criança. Ele se tornou uma espécie de místico para o neto mais velho que não o conheceu.

Um preto sensível de cabelo bem cortado, bigode bem feito, usava camisa de seda, calça de quina passada com ferro de brasa. Segundo histórias contadas, Adão de Zé Felo era um artista popular da tradicional festa do Zé Cabra e do vilarejo de Manda Saia, ora com seu violão, ora com seu pandeiro puxava o ritmo das festas ribeirinhas.

Entre caras, bocas, fala alta e gestos da pessoa que encabeçava o causo, estava eu encantado com outra coisa. Não sabia como manusear, tampouco como entender o que ali tinha. O objeto parecia interessante. Era algo relacionado com o céu e as estrelas. Na parte debaixo saia fogo e do outro lado era pontudo. Estava embicado para o céu. A capa era dura, havia anotações de saudade em várias páginas. Acredito ser de minhas tias.

O objeto era um livro. Meu primeiro contato com a palavra escrita foi através de um livro de meu avô Adão. Claro, não pude entender aqueles “códigos”. Entretanto, digo-lhes que foi um incentivo tremendo em minha fase de alfabetização. A cada letra ou palavra aprendida era uma alegria. Queria saber o que estava escrito naquele livro.

Vinte e seis anos depois, em uma viagem de férias para rever minha vó Maria, reencontro aquele objeto dentro de um baú de couro. De folhas pardas e capa arrasada de livro velho ainda estava feito o céu, interessante, desconhecido e místico. Hoje está em minha prateleira junto aos demais. Aquela capa com o foguete Apolo 11 colocou-me diante do prazer pelo desconhecido e o apreço pela imaginação. O que me faz vivo ainda é o encantamento pelo desconhecido com olhos de criança. Saber ler é a oportunidade de sonhar e viajar para outro plano no espaço-tempo através da imaginação.

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