'The Big Fire'

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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Cidade muito antiga, Londres foi, literalmente, forjada a ferro e fogo. Batalhas, lutas, pandemias, invasões estrangeiras, processos de aculturação, fusão de culturas diferentes provocaram profundas influências e consequentes mudanças na cidade e nos citadinos. No início da história, vieram trazidas por outros europeus, depois pelos chineses, atualmente por indianos e muçulmanos dos países que sofreram com as invasões e foram colônias inglesas até um passado não muito distante. População absurdamente miscigenada, de um lado descendentes de indianos que não admitem sua ascendência – garantem-se genuínos por terem nascido no solo inglês; muitos outros europeus, principalmente do Leste, que chegam à procura de oportunidade de trabalho; refugiados e milhões de clandestinos que se escondem constantemente da Imigração. Verdadeira versão moderna da bíblica Torre de Babel. A mistura do velho e do novo, do antigo e do recente, do real com o prosaico, da realeza e da plebe resulta num composto fascinante, notado por quem visita a Ilha, como os ingleses nativos se referem à Inglaterra, talvez para incluir a Escócia. Ou provocar a Irlanda.

Grandes catástrofes marcaram a história de Londres. Um ano após sofrer com a Peste Negra, uma dessas grandes catástrofes, a cidade foi tomada pelas chamas e perdeu oitenta por cento de sua área central na madrugada de 2 de Setembro de 1666, domingo. O fogo começou em padaria localizada em região densamente povoada, onde esse tipo de acidente era comum. Às oito horas, o incêndio alcançou as margens do Tâmisa onde havia depósitos de madeira e carvão, o que provocou explosões que aumentaram o alcance das chamas. Somente na terça-feira conseguiram debelar o incêndio. Verdadeira catástrofe, embora não tenha sido possível contabilizar mortes: não era costume contar pobres nessas tragédias. Mas, entre elas, pode-se afirmar que o Grande Incêndio de Londres teve seu lado de benefício. Afinal, a reconstrução, que transformaria a cidade na capital do mundo, somente aconteceu por causa dele. O arquiteto Sir Christopher Wren foi encarregado de projetar e construir The Monument, ou Great Fire Monument, torre de pedra de quase sessenta e dois metros de altura – exatamente a distância entre o monumento e o lugar onde o fogo começou. Tem estilo dórico romano, fica próxima à London Brigde, e sua construção teve início em 1672. Terminou em 1677. Uma das perdas materiais mais sentidas foi a Catedral de Saint-Paul, construída com madeira e inaugurada em 604. Considerada até então imbatível, um andaime de madeira, instalado do lado externo para obra de restauração, pegou fogo. Meia hora depois, tudo estava em chamas.

Carlos II, o rei, poderia ter feito como o Marques de Pombal, que modificou completamente Lisboa após o terremoto de 1755, mas preferiu reconstruir e manter o centro londrino no mesmo formato. Alargou um pouco as ruas e diminuiu o número de residências reconstruídas. Nova Saint-Paul Cathedral foi reerguida e ficou pronta em 1711, mais de cinqüenta anos depois. A alteração da área central deu origem à City londrina, o centro financeiro da cidade. Depois das chamas, nunca mais Londres sofreu com pandemias, porque as reformas - ruas mais largas e as casas afastadas entre si - melhoraram as condições de higiene.

Começa, então, a era de ouro para Londres com desenvolvimento e diversificação da economia o que atraiu investidores, comerciantes e banqueiros de toda Europa. O Banco da Inglaterra foi fundado em 1694. Surgiram indústrias como a Companhia das Índias Orientais; foram inaugurados quatro hospitais. Londres estava pronta para se tornar, e se tornou, a capital do maior império do Mundo.
 

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