Laços

Por: Sônia Machiavelli

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No Finados, cumprindo tradição, fomos levar flores para colocar no túmulo da família, no Cemitério da Saudade. Eduardo, neto de minha irmã, estava conosco.

Segurava desde o carro um vaso de crisântemos, cujo nome desconhecia e adorou saber. Ele o carregou, mas quando chegou ao local, nos falou que não queria homenagear o avô com aquelas flores amarelas, porque o avô gostava das vermelhas. Com jeito suave, pegou das mãos da tia Maria Elis o buquê de rosas, destacou três botões, pediu-nos que os deixasse sobre a lápide. O resto do ramalhete ele mesmo depositou, erguendo-se na ponta dos pés miúdos, entre sério e silencioso - algo incomum.

Cerca de quatrocentos quilômetros dali, na goiana Catalão, o primo Guilherme, iguais oito anos, também manifestava a sua dor: abria um pequeno baú onde havia guardado todas as cartinhas, bilhetes e desenhos que o avô lhe enviara. A mãe, atenta, aproximou-se e vendo que ele chorava mansamente o abraçou e ouviu: “Olhe, mamãe, o que o vovô escreveu para mim nesse dia,” e apontava para a data. A professora já havia conversado com os pais dele, pois desde a morte do avô, há um mês, ele se entristecia de repente no meio da aula.

Descendentes de italianos, minha irmã e eu somos tribais. Sabemos que na hora da dor podemos nos ajudar, nos dar as mãos, lembrar momentos onde questionamos a vida, outros em que lutamos contra a morte, e aqueles em que as conquistas foram celebradas com efusão de afetos. Sentimos necessidade de pertencer a um clã, de ficar bem conectadas com os nossos, de lembrar os que nos precederam. Acho que estamos transferindo isso para a mais recente geração.

Meu neto João, de idade quase igual à dos primos, sempre que surge oportunidade quer saber como era o vovô Corrêa, qual o tom de sua voz, o que comia, o que lia, se gostaria de ter um neto como ele. Termina a conversa com a mesma frase: “Ah, eu queria tanto ter conhecido o vovô!” Pega uma bengala e sai caminhado pela casa, fazendo ficção, seu forte.

O pai do João costuma lhe dizer que “carinho não gasta; não poupe; abrace, beije, diga que ama quem você ama.” E o meu neto vai se tornando cada vez mais amoroso. No domingo passado, ele levou para minha casa um Lego de duas mil pecinhas. Achei ótimo, porque por muitas horas se esqueceu dos eletrônicos. Montou casa de fazenda, curral, árvores, até cenário de casamento. De vez em quando eu ia olhar e o animava, observando o grande número de peças restantes.

Quando chegou ao fim a montagem, levei-lhe um lanche. Enquanto comia, João olhou um antigo despertador sobre a mesinha de canto e perguntou se era do vovô. Respondi que sim. Ele ficou uns instantes quieto, pensativo, voltou a olhar para o relógio, depois para mim. Então me fez uma súbita e já inesquecível declaração de amor:

“- Vovó, quando eu estou perto de você, o tempo passa tão depressa!”
  

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