O pulo do sapo

Por: Thereza Rici

404029

A casa era simples e ficava num canto da rua. Mas o terreno se estendia por quase um quarteirão. E era nesse quintal que Catarina passava uma parte de seus dias, sempre plantando ou tratando das plantas já existentes, de forma que dali tirava o milho verde e das árvores frutíferas, as frutas sadias, transformando-as nos melhores e mais gostosos doces da região. Num dos cantos do imenso quintal, Catarina tinha o galinheiro onde se misturavam galinhas, patos, angolas e até marrecos.

Tinha mais de cinquenta anos, magra, baixa, morena clara, simpática, exageradamente ativa e sozinha. Nunca se casou, mas pelo jeito, esse estado de vida nunca a incomodava, pois parecia estar sempre feliz e tranquila.

Para dar conta de seus inúmeros afazeres tinha como ajudante uma mocinha de seus quinze anos, magra, bastante alta para sua idade, esperta e que respondia pelo nome de Santinha. A menina morava com a mãe, numa casinha em frente à chácara de Catarina.

Na parte da manhã, antes do sol raiar, lá estava Santinha varrendo a frente da casa, regando as flores, e junto com Catarina cuidavam da casa. A menina não parava,

Ao meio dia começavam a chegar as pessoas que vinham na maioria das vezes trazendo seus filhos pequenos. Amontoavam todos na sala e iam dizendo à anfitriã os males que sofriam as crianças, porque estavam com quebranto ou mau olhado. Eram muitas as doenças, para serem curadas através das orações de Catarina. Era uma benzedeira. E Santinha ficava ali para ajudá-la.

Passavam-se os dias e de repente aparecia a mãe de uma criança atendida por Catarina, para agradecer-lhe trazendo um presente e dizendo-lhe que o filho estava curado.

Essas cenas encantavam Santinha que acreditava no poder mágico de Catarina, que com uma paciência invejável atendia a todos que a procuravam. À noitinha depois das sessões, ela corria para o quintal, em busca de galinhas com filhotes recém-nascidos, trazia-os para serem agasalhados numa pequena edícula pegada à casa.

Santinha a esperava na cozinha.

A menina preocupada com as idas de Catarina à noite para aquele quintal enorme, perguntava-lhe se não tinha medo de encontrar um ladrão ou um bicho e ela respondia:

Filha, eu não tenho medo de nada, nem de cobra, nem de bicho nenhum, e quanto às almas penadas, ou as vivas, tenho o corpo fechado, minhas orações me protegem .

Santinha admirava a coragem e disposição de Catarina, e ficava pensando porque sua mãe não era assim. Vivia reclamando do trabalho, estava sempre cansada, tinha medo de tudo, não saía sozinha e Catarina, que era mais velha, mostrava-se aquela fortaleza.

Numa tarde de sexta-feira o tempo fechou e logo começou a chover torrencialmente. Enquanto Catarina foi buscar suas galinhas com os filhotes, Santinha correu para sua casa. Por volta da oito horas da noite, ainda chovia quando Santinha e sua mãe ouviram uma gritaria vindo da casa de Catarina. A menina foi até a janela e teve certeza que o barulho vinha mesmo da casa de sua patroa. Mãe e filha temerosas do que poderia estar acontecendo foram em auxilio da vizinha. Como os gritos vinham do fundo, contornaram a casa e chegaram na edícula. E o que viram? Catarina ensopada pelas águas da chuva, pulava e gritava empoleirada em cima do fogão de lenha. Vendo a presença da menina e sua mãe, a benzedeira passou a apontar para o chão. Rapidamente mãe e filha olharam para a direção indicada e aí viram um enorme sapo que pulava e coaxava assustado, enquanto as galinhas rodeavam e cacarejavam agitadas, tentando proteger seus filhotes.

Dona Maria, a mãe da Santinha, com a vassoura agilmente varreu o enorme sapo para fora da cozinha e depois o matou .

Santinha, espantada com a eficiência da mãe e o terror da patroa, olhou bem para ela e perguntou:

- Mas, Catarina, você me disse que não tinha medo de nada, de bicho nenhum?

- É...! Mas de sapo, eu tenho.

    

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras