Estrelo, Estrela

Por: Sônia Machiavelli

404212

Você entrou na minha sala na segunda-feira e deixou tudo iluminado, como acontece sempre que aqui vem. O abraço apertado, as palavras carinhosas, a voz clara, o brilho do olhar eram os mesmos que me deixam mais entusiasmada diante da vida. Mas você está sempre com pressa, parece que vem buscar fogo, precisa sair logo como se tivesse mil tarefas a cumprir. Aliás, você as têm. E são elas o seu alimento. Sei bem disso. Nós, seus amigos, sabemos. Quando há alguns meses precisou passar por cirurgia, nos demos conta de quanto lhe é vital o estar em movimento - de corpo, de alma. Sofremos todos, nos alegrando depois com cada dia de sua recuperação. Até que tudo retornou à normalidade.

Ao vê-lo brilhando dentro da camiseta que é sua marca registrada, percebi o quanto está novinho em folha. Tão bem que voltou às suas aulas com aquela chama que identifica o professor vocacionado. Tão bem que voltou a declamar longos poemas de Vinícius até em auditório de universidade federal. Tão bem que nas mãos me trazia um livro, nova edição de Estrelo. Na capa dura a foto emblemática para quem leu o livro lançado em 1995. Lá estava o boi Estrelo debaixo de uma provável gameleira. Na contracapa cor de vinho, as últimas linhas da obra de estrutura peculiar: “Diz que boi também tem alma, e sonha. Decerto o Estrelo sonhava que virava gavião, que voava pra longe.”

Enquanto eu olhava embevecida a nova edição, ouvia-o explicar que se resolvera por ela tendo em vista que já não lhe restava único exemplar na estante. Posso imaginar quão emocionante deve ser para um escritor poder dizer isso: “não tenho mais nem para mim!” É raro e expressivo. Na sequência, falou dos duzentos volumes numerados, só para os amigos; e me senti honrada em ver que o meu era o 23.

Quando você foi embora, sentei-me para reler algumas passagens que permaneciam na minha memória de leitora: a macarronada com molho vermelho que lhe provocou trauma; seu perigoso trabalho de menino candeeiro; as súbitas mudanças de casa e de estado; a dura e precária vida no campo; a rudeza do pai; as rezas da mãe; a ida do professor Peixoto à sua casa; a busca pelo nome dos aprovados no curso de admissão ao ginásio...Quando me dei conta, a tarde tinha ido embora, e eu estava de novo com seus personagens povoando meu imaginário. Com eles fiquei até este instante em que lhe escrevo.

Obrigada, Luiz Cruz de Oliveira - pelo presente, pela dedicatória, pelo afeto. Por ter escrito este “colar de mini contos”, como disse no prefácio nosso saudoso Caio Porfírio. Por resgatar essas memórias que mostram ser possível salvar-se das misérias da vida e lhes conferir outro valor. Por alçar-se do chão bruto, árido, estéril e brilhar como estrela no cenário onde as palavras traduzem o sonho - reavivado cada vez que um leitor percorre as páginas de Estrelo e encontra Saracura, seu entorno, sua linguagem.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras