Empréstimo

Por: Roberto de Paula Barbosa

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Quem não conviveu com pessoas que estão sempre apertadas financeiramente e que vivem pedindo emprestado um dinheirinho para acertar no dia do pagamento? Isso quando não somos os vilões da história. No trabalho, nas rodas de amigos, nos bares, no âmbito familiar sempre aparece aquele amigo ou parente que está precisando pagar uma das pensões alimentícias, que poderia levá-lo à prisão. Se roubar, assaltar ou agredir alguém, e não for pego em flagrante, o malfeitor sai do plantão policial antes da vítima que é obrigada a ficar para elaborar o respectivo B.O., mas se não pagar a pensão vai ver o sol nascer quadrado.

Esses “amigos” sempre têm um motivo bem convincente para arrancar algum de alguém de coração mole e bolso cheio. Quando o coração é mole, mas o bolso não está cheio, o coração fala mais alto e acaba-se dando um jeito.

Depois dessas conjecturas, lembrei-me de um fato ocorrido no banco em que trabalhava, há muitos anos, quando havia muitos funcionários de coração mole e, também, muitos necessitados de reforço de numerário. O caso que me ocorreu agora é o de um funcionário da empresa de vigilância terceirizada e que patrulhava a entrada dos clientes à agência. Bem uniformizado, com cassetete no cinturão e uma arma no coldre lateral bem abaixo da cintura, estilo Clint Eastwood, era um bom vigilante, atencioso e cortês, mas suas economias eram uma catástrofe, pois tinha que pagar umas três pensões e suas namoradas não lhe davam trégua. O mês durava o dobro do seu salário mensal; então o jeito era recorrer aos empréstimos dos amigos, para suprir a metade negativa.

Certa feita ele recorreu a um colega de coração mole, explicando sua situação, prometendo pagar tudo assim que recebesse o seu ordenado. O colega emprestou-lhe alguns milhões de Cruzeiros Reais, hoje equivalente a uns mil Reais. Logicamente não foi possível a quitação da dívida, pois a metade negativa do mês já clamava por cobertura e não tinha como arrancar ouro do asfalto com as unhas. Humildemente, com a cara que ele usava para enfrentar tais situações, informou ao credor que não seria possível saldar seu compromisso, mas assim que pudesse, faria o pagamento. O colega de coração mole então lhe ofereceu a alternativa de dividir em dez pagamentos, sem juros, o que possibilitaria saldar a dívida sem atropelar suas combalidas finanças. Feito o acordo, as três primeiras prestações foram pagas normalmente. Nesse ínterim o nosso devedor fez um acerto com a empresa onde trabalhava e recebeu acumuladamente uma boa quantia. Não se fez de rogado: chegou ao nosso coração mole e perguntou-lhe quando ele daria de desconto para pagar o saldo devedor de uma só vez. Nosso colega, sorrindo à sorrelfa, disse-lhe que não daria o desconto, mas que ele poderia continuar pagando mensalmente. Assim foi feito até a última prestação. Nosso “cowboy”, colocando o dinheiro da derradeira parcela na mesa de nosso colega, disse em alto e bom som, para todos ouvirem, como que para aliviar o peso do ônus que carregara por dez meses consecutivos: “Finalmente, agora, num tô devendo para fdp nenhum”.

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