Museu de cinzas

Por: Sônia Machiavelli

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Apesar de a memória andar mancando por conta do excesso de auxílios cibernéticos, ainda me lembro da abertura dos Jogos Paraolímpicos Rio 2016, obra de arte inusitada. As peças de um gigantesco quebra-cabeça eram levadas pelas delegações, com o nome do país de um lado e a foto dos atletas do outro. Cada qual colocada no centro do palco do Maracanã, quando a última se encaixou formou-se coração que começou a pulsar graças ao uso de luzes. A referência explicitava o conceito central da cerimônia resumido na frase: “O coração não conhece limites”.

Nem o coração, nem o talento do artista plástico, fotógrafo e pintor brasileiro Vik Muniz, responsável pelo espetáculo, atento às coisas e causas do Brasil, mesmo radicado há anos em Nova Iorque. Em 2010, sua obra Lixo Extraordinário, sobre o desumano trabalho dos catadores de Gramacho, tornou-se documentário premiado no festival de Berlim e no Sundance. A preocupação ambiental o levou a produzir outra obra de grande porte, Imagens com Nuvens, a partir da fumaça de um avião.

No âmbito dos espaços físicos menores, pintou o retrato do pai da psicanálise, Sigmund Freud, com calda de chocolate. Fez cópia da Mona Lisa com manteiga de amendoim e geleia. Recriou com açúcar rostos de filhos de cortadores de cana do Caribe. Contornos de xarope desenharam uma banda de jazz. Grãos e xícaras reproduziram o rosto de John Lennon. Esses retratos, e muitos outros a ketchup e maionese, mostraram original processo que consistia em compor imagens com materiais perecíveis e então fotografá-las. As fotos, produto final, fazem parte de acervos particulares e museus de Londres, Los Angeles, Nova Iorque, São Paulo e Belo Horizonte/ Inhotim.

No último dia 15, quando o noticiário exibia flashes do nosso Brasil maltratado, onde crianças morrem baleadas, 66% das vítimas de homicídios são negros e 1/3 da população não tem acesso a saneamento básico, fez-se uma pausa rara para a beleza. Foram mostradas algumas obras do artista expostas em galeria de Nova York. Eram imagens relacionadas ao Museu Nacional do Rio, que ardeu há pouco mais de um ano. As chamas que todos vimos destruíram objetos milenares e outros representativos de nosso processo evolutivo como nação. Muito ligado à instituição, Vik diz ter chorado ao ver as labaredas gigantes. Dias depois, foi ao local e de lá saiu pesaroso, com um punhado de cinzas e uma nascente ideia na cabeça. Usou as cinzas em colagem impressionante da fachada do Museu e do crânio de Luzia, fóssil humano mais antigo da América, destruído em instantes.

Tanto quanto a metáfora das obras, colocadas nas paredes pouco iluminadas para compor um clima de tristeza, em minha alma ficou inscrito o gesto. A arte de Vik Muniz reproduziu o que nós, humanos, temos necessidade de fazer em tantos momentos enlutados de nossas vidas. Ressignificar o que restou é tarefa a ser enfrentada com dor e esforço. Reconheço que nem sempre conseguimos dar conta do recado. Mas se, a duras penas, as cinzas ganham o sopro de nova vida, deixam de ser escombros e nos fazem sentir pequenas fênix renascidas.

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