Meus avós

Por: Carlos de Assumpção

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Há muitas histórias/ Sobre os meus avós/ Que a História não faz/ Questão de contar/ E as histórias /Dos que desesperados/ Se atiravam dos navios/ No abismo do oceano/ E eram acalentados /Por Iemanjá /E as histórias/ Dos que enlouquecidos/ Gritavam em vão/ Chamando a mãe África/ Saudosos da África/ Ansiosos por estreitar/ De novo nos braços/ A velha mãe África/ E as histórias/ Dos que morriam de banzo/ Dos que se suicidavam/ Dos que recusavam/ Qualquer alimento/ E embora ameaçados /Por roncos e chicotes/ Não se alimentavam/ E acabavam morrendo/ Encontrando na morte afinal/ A porta da liberdade/ E as fugas em massa/ Planejadas na noite das senzalas/ E os feitores/ Mortos nos eitos/ E os senhores/ Mortos nas casas grandes/E nas tocaias das estradas/ Há muitas histórias/ Sobre os meus avós/ Que a História não faz/ Questão de contar/ Não me venham dizer/ Que os meus avós foram/ Escravos submissos/ Por favor não me venham dizer/ Eu não aceito mentiras/ Cortarei com a espada/ Dos meus versos/ A cabeça de todas as mentiras/ Mal-intencionadas/ Com que pretendem humilhar-me/ Destruir o meu orgulho/ Falseando/ A história dos meus avós/ Os meus avós foram bravos/ Foram bravos os meus avós/ Apesar de todas/ As crueldades sofridas/ Os meus avós nunca/ Nunca se submeteram/ À escravidão/ A quem ainda duvide/ Aponto entre outras epopeias/ A epopeia dos Palmares/ Cujos quilombolas chefiados/ Pelo herói negro Zumbi/ Acuados pelos inimigos/ Muito mais bem armados/ E muito mais numerosos/ Esgotadas todas as forças/ Apagadas todas as esperanças/ Se despenham da Serra da Barriga/ Preferindo a morte gloriosa/ A infame vida de escravo/ Aponto as revoltas malês/ Quando os batacotôs (Tambores guerreiros)/ Puseram em pânico/ A cidade da Bahia/Há muitas histórias /Sobre os meus avós/ Que a História não faz/ Questão de contar/ Meu avós foram fortes/ Foram bravos/ Foram bravos/ foram fortes/ Os meus avós
 

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