Bagagem Invisível

Por: Ligia Freitas

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Tínhamos um encontro marcado com os alunos do 6º e 7º ano da escola pública Maria Cintra Nunes Rocha, da cidade de Franca.

Dois meses antes, havíamos aberto um concurso de contos, recebemos quatorze inscrições: treze contos e o desenho de um aluno especial chamado Saulo, que apesar de não escrever, se expressava plenamente através da arte.

Ao entrarmos em contato com o material, mudamos de ideia: aborta o concurso, nosso propósito não é criar competição, mas entusiasmá-los para a escrita, que tal publicarmos um lindo livro em nome dos participantes?

Olhamos umas para as outras (Edna e Grácia professoras de português e eu, escritora) como quem entoa um grito de guerra e assim saímos em busca do livro: patrocínio, organização, edição, publicação, com o apoio do comitê da educação do grupo Mulheres do Brasil, notadamente nas pessoas de Janisse e Eliane.

O livro ficou pronto, era a nossa surpresa para os 14 alunos no tal encontro marcado.

Eis que chegou o grande dia, arrumamos os livros, as lembrancinhas e uma caixa de lápis de cor (presente para o desenhista) em cima da mesa central e ficamos posicionadas ao lado da mesma, enquanto os alunos entravam, um frio na barriga bateu à porta da minha alma dizendo:

- Adolescentes não têm interesse em leitura, ninguém gosta de ganhar um livro, o aluno desenhista não reconhecerá os desenhos feitos por ele na capa e contracapa do livro.

Nossa ideia para estimular a escrita seria uma furada?

A resposta veio a galope, tão logo o aluno Saulo avistou os livros e mostrou um espanto sorridente: “meu desenho, meu desenho, esse livro é meu?”. Em seguida, olhou para a caixa de lápis de cor: “Só pode ser minha, é minha, é minha?”.

É, Saulo, você é mesmo um ser humano especial, quanta delicadeza em sentir-se parte do todo, e fazer-se presente ainda que a sociedade muitas vezes o considere ausente.

Quem aprende com quem? A dúvida ficou ali pairando pelo ar.

Edna abriu os trabalhos, era uma mãe alongando os braços e acolhendo seus filhos, usou sua voz grossa e terna como um convite para o amor, assim eles se desabrocharam em ávidos ouvintes.

Grácia entrou em cena com uma contação de histórias pra lá de envolvente, feito uma atriz no palco da vida, sabedora de sua luz própria que desfila faíscas na plateia que se ilumina.

Chegou a minha vez de falar e me dei conta de que eles já estavam totalmente envolvidos, com o microfone nas mãos, fiquei muda por alguns segundos, apenas absorvendo a energia deles. O medo me acovardava, então passei a pensar somente neles e me esqueci de mim, foi assim que surgiu a necessidade de dar voz à conexão que havíamos estabelecido com o silêncio.

E ao falar de maneira improvisada (porque queria explicar sobre o improviso na escrita) percebi o quanto os jovens precisam de atenção, não no sentido material ou de estar fisicamente no mesmo ambiente, atenção no sentido poético, de fazer elo, de estabelecer contato para a real felicidade, que não é plena, pois sútil, mas cuida do ser, antes do ter.

Contei sobre a surpresa do livro, eles ficaram radiantes e receberam-no como quem recebe um troféu após a batalha vencida, o que parecia pequeno se agigantava diante dos nossos olhos, feito uma bexiga que se enche com o próprio ar.

A bexiga faltou, mas não impediu que o dia terminasse em festa, a Grácia vestiu-se de Papai Noel e distribuiu guloseimas com gargalhadas.

Despedimo-nos com o lado esquerdo do peito inchado de tanta emoção.

Ao sair da escola, percebi-me levando apenas uma sacola nas mãos e dela tirei uma lição: o que muda o mundo não são as coisas que carregamos, o que muda o mundo é uma bagagem invisível chamada coração.

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