Moreninho

Por: Roberto de Paula Barbosa

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Neste segundo semestre de 2019 foi lançado o livro Ao Moreninho, Nosso Abração, de autoria de José Henrique Bettarello, narrando a saga do Sr. Hugo Bettarello, em sua passagem, para nosso gáudio, por nossa querida Franca.

Fiquei protelando, por vários motivos, a sua aquisição, até que um dia precisei comprar algum material na Livraria e Papelaria Mendonça e vi sobre o balcão a oferta do tão desejado livro que eu adquiri imediatamente.

Eu não tinha uma relação de amizade estreita com o Sr. Hugo, mas como eu trabalhava no Banco do Brasil no atendimento aos empresários, sempre que ele comparecia à agência, o ambiente se tornava alegre, descontraído e as risadas eram espontâneas, já que para ele não havia contínuos, escriturários, chefes, gerente: havia humanidade.

Assim, comprei o livro para conhecer mais de perto a lenda que foi esse homem magnânimo e que deixou o traço de sua existência na história da cidade. A sua vida já era muito conhecida de todos que tinham algum relacionamento com ele, seja empresarial, social e sentimental, e eu não fazia parte desse conjunto, exceto as barrigadas e os apertos de mãos, quando aparecia ao banco.

Comecei a ler e em apenas duas sentadas eu o terminei. Imaginem a minha satisfação ao identificar os depoimentos, a maioria de pessoas conhecidas, mas, principalmente, de amigos e pessoas que fizeram parte de minha vida, que deram o seu testemunho sincero de suas vivências com o Sr. Hugo. Emocionei-me ao ver as demonstrações e narrativas de meu inesquecível professor Alfredo Palermo, o qual me deu o gosto pela literatura e a coragem de redigir pequenos textos; dos meus colegas de banco Ricardo Bassalo, meu eterno chefe, e do Leube Brigagão do Couto; dos amigos e eternos irmãos Antonino Pereira Vasconcelos e Luciano Botto, pai de meu irmãozinho Tarciso Botto. Não posso esquecer-me do Hugo Luiz Bettarello, filho do homenageado, que foi meu colega de classe no “Torquato Caleiro”.

Mas a história não termina ainda. Numa manhã ensolarada apareceu o Sr. Hugo no balcão de atendimento dos industriais, no quarto andar do prédio do BB, e eu tive a honra de atendê-lo. Após receber o aperto de mão que me fez dobrar os joelhos, ficando protegido da barrigada pelo balcão, eu disse-lhe que um novo gerente da agência estava tomando posse naquela data e que eu queria apresentá-lo. Mais do que depressa ele quis conhecer o novo gerente. Naquele tempo o gerente tinha uma sala exclusiva no mesmo andar em que estávamos, sentado atrás de uma enorme mesa oval, mais propícia para reuniões do que para trabalho. Acompanhado do Sr. Hugo, pedi licença para adentrar a sala, e disse-lhe que queria apresentar um dos maiores empresários da Franca e um dos nossos melhores clientes. O gerente, Dirceu Ribeiro de Carvalho, mais magro que bacalhau pendurado na porta de armazém português, levantou-se e, formalmente, estendeu a mão para cumprimentar o Sr. Hugo, mas este lhe disse:

- Não, Moreninho! Espere só um pouquinho.

Então ele deu a volta ao redor da mesa até o Dirceu e este, quando lhe estendeu a mão, recebeu um abraço inesperado e uma barrigada tão forte que eu escutei os seus ossos estalejarem, além do ar de seus pulmões saírem de uma só vez, emitindo um bramido tão alto que todos no salão, antevendo a façanha, caíram na risada.

A partir deste evento, sempre que via o Dirceu, parecia-me que ainda estava ajeitando os seus ossos dentro do saco de pele.

Na gestão do Dirceu, devido ao incremento das exportações de calçados, foi criada a Carteira de Câmbio, facilitando os negócios em moedas estrangeiras que eram feitas através de Campinas e São Paulo. Na inauguração dessa Carteira, tivemos a honra de celebrarmos o primeiro contrato de compra de dólares com a assinatura do Sr. Hugo Bettarello, em nome da Agabê, que nos prestigiou exclusivamente, enquanto exportador, com as suas vendas ao exterior. Além do contrato nº 1, entre outros, também demos preferência a ele nos contratos de nº 100, 200, 300 e assim sucessivamente até o nº 1000. Minha memória falha, mas tenho certeza que continuou assim ainda por muito tempo.

Lamentavelmente perdemos também, neste ano, nosso colega Dirceu Ribeiro de Carvalho, que igualmente deixou sua marca na trajetória no Banco do Brasil.

Para quem conheceu o Sr. Hugo, riso fácil, contagiante, nunca o esquecerá, assim como eu, que tive o prazer de desfrutar de poucos momentos com ele, mas que me faz recordar com saudades meus tempos de bancário e conviver com pessoas que moram eternamente em meu coração.


 

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