'Diversos'

Por: Sônia Machiavelli

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Descobri em mim um preconceito. Nunca me ocorreria pensar que uma empresa líder mundial em laminados e reciclagem de alumínio, a Novelis, pudesse patrocinar um livro tão sensível, emotivo e inspirador como é Diversos, projeto importante da Rede Educare. Publicação em papel couché e fotos de excelência, a capa (30x28cm) é show.

Os textos bilíngues, português e inglês, perfeitos enquanto informação e comoventes pelas metáforas que algumas vezes alçam o gênero literário, primam pela concisão e elegância. Assinados pelo jornalista Jefferson Souza, perfilam 31 entrevistados de todo o Brasil que compõem um panorama amplo da nossas diversidades étnica, religiosa, física, geracional e de gênero. Todos mostram a arte como elemento catalisador de mudanças nas vidas de brasileiros diversos, distintos, diferentes. Singulares.

Encontramos nas páginas o músico negro que em criança vendia pastel no Candeal. O cordelista nordestino que não sabia o que era xilogravura mesmo sendo um xilogravador. A artista plástica pataxó. O músico pioneiro em queer rap. O jovem que sofre de nanismo e conquistou lugar na cena televisiva. A menina nascida cega que se formou bailarina. O mineiro que aprendeu a esculpir na marcenaria do pai e observando os santos nas igrejas. A cineasta premiada oriunda da escola pública na periferia. O rapaz com síndrome de Down que participou como ator de um filme.

Estes e outros mais contam suas histórias marcadas pelas dificuldades mas transformadas pela arte. Entre tantos exemplos de luta, nossa querida francana Maria Goret Chagas, artista que pinta com mãos e pés. Como os trinta, ela faz seu relato impregnado de verdade e sentimento- mas não sentimentalismo. Aliás, todas as pessoas retratadas em Diversos mostram uma força extraordinária, uma galhardia que lembra heróis.

Para levar cada foto e cada fato ao público leitor, a equipe responsável pela produção cortou o Brasil de norte a sul, de leste a oeste durante meses. Foi uma jornada custosa, de fôlego, cujo resultado nos mostra como somos semelhantes e desiguais, e quantos estão batalhando para que os preconceitos possam ir se desfazendo cada vez mais. Nomes importantes na luta pela igualdade, como Bela Gregório, do Grupo Efêmera; o escritor André Fischer, criador do MixBrasil; a atriz Maitê Shneider, que procura incluir pessoas trans no mercado de trabalho fazem parte dessa pequena grande seleção , um microcosmo do país.

“Parece que o mundo finalmente acordou para o fato de que reconhecer e valorizar as diferenças entre as pessoas, respeitando a diversidade de gênero, raça, crença, orientação sexual ou condição social, representa um dos mais importantes avanços civilizatórios de nossa época”, diz à guisa de prefácio André Palhano, idealizador do evento Virada Sustentável. Na mesma tecla bate Kátia Brasileiro, da Educare, ao dizer que Diversos mostra o vivo retrato de um país que é rico porque é diverso e onde as diferenças fazem com que sejamos todos iguais. É a nossa contribuição para pavimentar a estrada rumo a um futuro de tolerância, inclusão e diálogo”.

Falta agora avisar às autoridades brasileiras instaladas no Planalto.
 

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