Menina da roça

Por: Angela Gasparetto

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Temos visto atualmente uma queda no volume de vacinas no Brasil, o que é um sinônimo explícito da falta de informação mesclada às fakes news da atualidade.

Isso me fez pensar em como minha geração, que não tinha acesso ainda a esse programa do governo, se virou para se manter a salvo das doenças.

Lembro-me de como era aterrorizante o encontro com os profissionais da vacina. Hoje rimos muito disso, mas na época era um trauma.

Tenho uma vaga lembrança do contato com as vacinas de quando ainda morávamos em fazendas; e em minha mente eu só vejo borrões dos homens de branco e da meninada correndo em pânico.

E era um tal de menino se esconder atrás do tanque, outro embaixo da cama e “valha minha nossa senhora que eu não quero isso!”, ouvia eu com os olhos arregalados e chupeta na boca.

Agora a vacina de que me recordo bem foi já aqui morando em Franca. Não tive como fugir e em pânico, choro preso, deixei o moço de branco me picar. Era a da Varíola, ou seja, aquela da marquinha. Além do pavor pelo qual passei, a marquinha virou uma “marcona” e fiquei mal durante dias.

Foi bom que pude ficar junto de minha avó Chica que naquela época morava na Floriano Peixoto, rua dos meus encantos infantis de quando viemos morar na cidade.

Já falei diversas vezes aqui desse tempo que passava lá na Floriano Peixoto com a minha avó Chica. Eram dias de magia, de carinho e de descobertas. Menina da roça, já viram, não é? Tudo era motivo de encanto, ou seja, a rua de paralelepípedo, a carroça do padeiro e do leiteiro, a colcha de retalhos, a penteadeira da tia Maria e os carnavais que minha avó fazia questão de nos levar para ver Frente Negra passar.

Bom, mas voltando à vacina, sei que fiquei muito mal, tive febre e pensei que fosse morrer de verdade. Só não morri mesmo porque acredito que durante a febre alta, eu vicejava nas fantasias de estar morando ali naquela rua mágica. Quando melhorei, pude voltar para casa e sentir a brisa restauradora da convalescença.

Vesti minha calça vermelha rancheira, aquela comprada na Comercial São Sebastião, coloquei meus sapatos insólitos e voltei com minha mãe para casa.

Voltava com a marca enorme no braço, o coração feliz e a alma leve.

Eu havia sobrevivido à primeira doença de que me lembrava e poderia ver a luz do mundo de novo, pensava mirando as pedras do caminho. Mais tarde, já com 13 anos o sarampo me visitou. Então, foram dias de tormento e dor, pois além de não vicejar em mais nada, só sentia o embaraço de ter tido aquela doença em plena adolescência.

Mas o engraçado é que sempre que passo por uma turbulência e consigo me recuperar, sinto a mesma sensação plena e leve daquela convalescença pós-varíola.

Tudo está no lugar, o sol brilha e posso caminhar de novo para casa; até porque sei que ainda dentro de mim mora a mesma menina da roça feita de encantamentos pueris e profundos sentimentos críveis.


  

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