Tristezas indefiníveis

Por: Maria Luiza Salomão

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Cantava Jair Rodrigues tempos atrás: tristeza, por favor, vá embora, minha alma que chora, está vendo o meu fim.

Canto baixinho: Tristeza, por favor, não vá embora. Minha alma que chora, está vendo, enfim.

Gratidão pela companheira tristeza. Com ela pressinto de onde vim, para onde vou.

Alegria embaça a vista, colore, adoça e anestesia: é bom, é gostoso, reabastece, ótimo!

Mas a tristeza me confere formas nítidas, ângulos agudos, uma perspectiva, pra trás e pra frente.

Som triste cresce longe: canto quieto, grave, nubiloso. Alegria brilha, eufórica, dispersa, um flash. Tristeza vai se me assentando: acentua conceitos, entretece complexidades, únicas, limitadas.

Alegria linda alhos/bugalhos, esfuma. Tristeza separa joio do trigo, faz colheita enxuta, fértil, me capacita para novas lavouras.

Tristeza é sementeira. Alegria é consumo rápido.

Tristeza é armar fogueira. Alegria é fogo de palha.

Noticiários televisivos me dão tristeza. Vejo/ouço ódios/ fanatismos/hipocrisias; interesses escusos/egocêntricos; traições/ delinquências/assassinatos; fake News - novo nome para fofocas; palavras bonitas que não florescem, antes fenecem confianças; lideranças oportunistas; ressurgimento de ovos de serpentes; gentes que não sabem envelhecer; jovens que são como velhos; gentes que pensam comprar amores, ternuras, respeito, amizade; canalhices banalizadas; violências gratuitas: intolerâncias extremadas às diferenças.

Os seres humanos repetem ciclos: não aprendem a amar/ligar/ reunir.

Tristeza traz dignidade ao olhar desarmado: que sente, não age. Que compreende/ não amarga. Há um tom a menos, uma suspensão a mais, uma espera dilatada que só a tristeza ensina.

Não falo de depressão, aniquilamento, destrutividade. Tristeza capacita a conservar o espírito - centrado, em si; torneia a paciência para reconhecer o sagrado, o Vital. Não advém súbito, nem é visível a olhos nus.

O que é grande, multiplicador, nobre, principia micromicroscópico: basta cultivar o olhar, o sentir, para o porvir a ser criado.

Sentir tristeza gera fortalecimento de caráter.


 

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