Comida e arte

Por: Sônia Machiavelli

405050

Tenho amigos de minha geração que se recusam a adentrar o mundo digital. Eu até os entendo. Não são poucas as vezes em que me sinto incomodada pelo que leio nas redes sociais. Violência verbal, grosserias, ignorância, arrogância, preconceito, infâmias e ruindades de toda ordem junto às fake news, costumam me afastar deste espaço importante e perigoso. Mas volto a ele por dever de ofício. Que jornalista pode prescindir desses meios hoje?

Reconheço que não há como fugir da realidade, o ‘admirável mundo novo’ está aí com seus desafios. Tudo tão perto do dedo que digita e ao mesmo tempo tão longe da pessoa que se esconde no anonimato. Mas, aleluia, em contrapartida ao mal há o bem desvelado em posts inspiradores, que nos fazem viajar, sorrir, pensar, voar, sonhar. É a melhor parte. Foi um desses que me fez reencontrar escritor de que gosto bastante e vejo pouco referido no Brasil: Philip Pulmann, autor de ficção científica prestigiado pelos leitores de língua inglesa.

A postagem que me levou a ele é de Oliana Sy e reproduz uma frase do autor da trilogia Fronteiras do Universo: “Crianças precisam de arte e histórias e poemas e música tanto quanto de amor, comida, ar fresco e brincadeiras”. Compartilhei a imagem com a frase que remetia ao link de um artigo do autor sobre literatura e vi que a psicóloga Sonia Godoy comentou: “Sim! Nós adultos também.”

Estas quatro palavras me tocaram como uma brisa verde e boa, fértil e memoriosa. Sim, nós adultos também precisamos disso tudo que está no nível do sonho, do lúdico, das emoções das quais a música talvez seja a maior intérprete, na medida em que pode ser sentida por todos. Resgatei Os Titãs: “A gente não quer só comida/ A gente quer comida, diversão e arte/ A gente não quer só comida/A gente quer saída para qualquer parte.”

É por isso que dedico boa parte de meu tempo à ONG Academia de Artes, que funciona no Recanto Elimar e foi assim nomeada exatamente porque todos que ali estamos acreditamos na força da arte em mobilizar as emoções do ser humano.

Quando duas alunas escrevem um texto, concorrem com estudantes de todo o Brasil e se classificam entre os melhores, elas se sentem felizes porque percebem que sua emoção grafada comunicou algo que foi levado para dentro de um livro. Quando vinte sobem ao palco do nosso Teatro Municipal para dançarem com outras cem O Quebra-Nozes, há um brilho no olhar delas que supera o da purpurina de suas fantasias. Quando uma menina tem sua pequena tela adquirida por pessoa que se encantou pela natureza morta que ela pintou, isso faz vibrar no seu coração as cordas da alegria e da autoestima. Quando uma classe aprende de cor a clássica canção natalina em inglês, há motivo para querer cantar com mais entusiasmo.

A arte é para isso. Para tocar em pontos da alma que a matemática com seus números duros, a química com suas fórmulas precisas, a física com sua exatidão incontestável não conseguem. A arte existe para desdobrar a vida, porque a vida só não basta, já dizia o grande Ferreira Gullar.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras