Memórias

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

405056

Impossível guardar todos os momentos vividos durante quaisquer viagens. E quando eles marcam, passam a ser o ícone do local onde aconteceu. Passam os anos, acontecem novas surpresas, as novas juntam-se às antigas e formam o acervo pessoal do proprietário. Permanecem e formam seu tesouro interior.

Croácia, por exemplo. Lindas cidades – Dubrovinic, Zagreb; lindas praias – Brac e Split; maravilhosos passeios de barco pelo Mar Adriático; montanhas de mármore; a estranha experiência com a proximidade da destruição, fome, horror causados pelas guerras; marcas de violência em Montenegro, Saravejo, Bósnia e Herzegovina, Sérvia e Kosovo. Entretanto, o nome do país me traz imediatamente à memória o Broken Relationship Museum, a um quarteirão da praça central de Zagreb. Na esquina, casa branca construída dentro das especificações do padrão local. No interior, em pequenas prateleiras de acrílico presas às paredes e iluminadas por luz direta, a exposição inusitada de mix de estranhos objetos. Malas, brinquedos, tíquetes de viagem, peças de roupas, chaves, livros, velas, castiçais, vestido de noiva, vestidos de baile, flores, copos e taças quebrados, panelas, bolsas, echarpes, casacos, telefones, canetas, sapatos, chinelos, quadros, álbuns de retratos, porta-retratos - um objeto apenas em cada prateleira, acompanhado de pequeno texto, que conta a história e o motivo de estarem ali, escancarando momentos significativos de seus antigos proprietários. Pequenas amostras de vida, amores, lembranças, situações... rompidas. Fiquei par de horas vagando pelas salas, a saborear os textos, a imaginar os protagonistas e, no fim, concluir que a vida acontece e é guardada também nos objetos, e estes se tornam testemunhas mudas de situações que foram, um dia, realidade.

Há, no centro de Londres, museu de arte nacional, setecentista, fundado com base na coleção particular de Sir Richard Wallace. O acervo é composto por coleção de pinturas, esculturas, móveis, porcelanas, armas e armaduras. Chama-se Wallace Collection, está exposto no palácio Hertford House, localizado em Manchester Square.

Quinze horas, dia caindo em pleno outono, entra nas dependências lindo casal nobremente vestido. Não são jovens. Não os conheci, mas à primeira vista juraria serem Lord e Lady Wallace pela pompa de suas roupas. Dirigem-se à recepção, entregam seus abrigos de frio, separam-se e começam a visita ao local. Ele, de câmera nas mãos, percorre os salões, que não são numerosos, mas abarrotados de pequenas e grandes peças finamente feitas à mão, em porcelana, e de pinturas de Rembrandt, Van Dyck, Hoock, Rubens, entre outros. Ela desapareceu. Pacientemente ele percorre os salões, eventualmente nos encontramos. Preparando-me para sair, encontro-os na loja de vendas do museu. Escuto-os falar, são brasileiros. Observo que ele veste terno de acabamento esmerado, ela vestido preto longo. Conversam baixinho, dirigem-se à saída, seus casacos são devolvidos. O dela é longo, em pele preta, com enorme gola. Ele a ajuda a colocá-lo. O dele lembra o sobretudo de Sherlock Holmes, com abertura para colocar os braços e gola também de pele. Só falta o cachimbo. Ela põe na cabeça delicado chapéu preto de feltro, ele ajeita o seu, também de lã. Juntos esperam, o porteiro solícito os aborda, diz qualquer coisa, ele pega no braço dela, dirigem-se ao black cab que parou à frente do prédio, ele lhe abre a porta, dá a volta, entra pelo outro lado. O cab vai embora e eu não perco um take daquela cena. Dizem meus filhos que qualquer hora chego com o olho preto em casa, com essa mania de olhar tudo.

  

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras