O Desconhecido

Por: Maria Luiza Salomão

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Era uma vez um grupo que estuda psicanálise aos domingos, e queria celebrar o amigo invisível, ao final de 2019.

Sugeri dar relevo à subjetividade do doador, mudando a direção da pretensa adivinhação do que agradaria ao amigo receptor do presente. Que cada um procurasse entrar em contato com o Desconhecido. Quantas vezes desconhecemos o tal “amigo”, ao sortearmos seu nome.

Mal sabemos de nosso Desconhecido Eu, que nos habita...

Assim, todos compraram presentes para um amigo Desconhecido. Cada qual se dirigiu ao aspecto feminino ou masculino que nos habita. No grupo há, de fato, um varão e muitas mulheres.

Depois de narrar o processo de escolha do presente ao Desconhecido (a), o papel com o nome do amigo, Desconhecido, era retirado. O presente era o equivalente a jogar ao mar uma garrafa com uma carta, sem saber do anônimo destinatário que a receberia. Na narrativa, todos desembrulhavam o presente, e revelavam os sentimentos, expectativas, sentidos, significados, ofertados através dele.

Fazer o bem sem olhar a quem. Quem se conhece ou conhece intimamente alguém?

O interjogo combinado não foi, realmente, de coisas: o principal era a oferta genuína - de si - ao Desconhecido. Ao pensar no que oferecer ao Outro, retratava-se, revelava-se.

Não é assim o que acontece em qualquer relacionamento?

Alguém cantou à capela o Caçador de mim (Mílton Nascimento), e nos falou de sua timidez: sensível oferta. Uma bela orquídea branca despertou uma investigação do doador sobre o sentido e significado do gesto e da escolha.

Queria que meu presente “falasse” sem palavras. Demorei a achar o retrato do meu desejo: três vasinhos de mudas de temperos – hortelã, manjericão, alecrim – uma Temperança - transformar, perfumar, temperar paixões.

A abertura ao Desconhecido nos trouxe Luz, Sabor, Sabedorias: Entrega.

Íntimos permanecemos genuínos mudados.

O Desconhecido? Menos temido.
  

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