Milagre diário

Por: Sônia Machiavelli

405973

Se a gente parar para pensar, vai concluir que a vida é um milagre cotidiano. Corremos riscos a todo momento, desde que nascemos. Podemos tropeçar, levar um tombo, bater a cabeça, terminar com uma hemorragia intracraniana que apaga tudo em segundos. Sofrer atropelamento enquanto pedestre na travessia de uma avenida, atento aos semáforos mas alheio aos condutores irresponsáveis. Ou então sucumbir como motorista que de repente vai atender a uma chamada de celular, apanhar um papel que caiu no piso, acessar uma música – é só instantinho! E lá se vai embora o corpo com o carro que derrapa, sai da via, bate ou capota. Se motociclista ou ciclista, qualquer descuido na velocidade ou na obediência às regras de trânsito e a passagem para o Bebeléu está garantida.

Mas não é apenas nos espaços públicos que uma das Moiras amola sua foice. Em casa, um inocente escorregão já causou muitos óbitos. Subir ao sótão para trocar filtro de ar condicionado às vezes fornece passaporte ao Além. Ou então é o portão da garagem que de repente se descontrola, arrebanha longos cabelos e escalpela a moça antes do golpe de misericórdia. Secador é um perigo, se em contato com água no instante em que as madeixas passam pelo ar quente. No recôndito do lar, entre dobras de roupas, o escorpião que se esconde traiçoeiro pica de maneira fatal uma criança. Dentro da domesticidade ninguém está imune: entre milhares de microorganismos pode estar uma bactéria que invadirá nosso organismo, resistirá ao mais potente dos antibióticos e dará cabo do sistema.

No bar, a tal cerveja geladíssima que tomamos com prazer entre amigos é capaz de conter substância que antes de parar o coração vai provocar dores e paralisar os rins. O camarão cujo vencimento foi adulterado pelo mau comerciante e a maionese só na aparência apetitosa porque maquiada depois de dias, costumam ser letais. Uma simples incursão ao campo em domingo de sol será trágica se uma colmeia de abelhas africanas for tocada por turista alérgico. Quase todos os dias balas perdidas ceifam num triz inocentes humanos nas favelas do Brasil. No país dos raios, ele matam mais do que se imagina.

Na fábrica, uma peça escapa da máquina onde há anos o operário trabalha, e em lugar de bater no chão ou na esteira, soca seu peito com tal violência que para na hora o bronze. O menino feliz que joga bola na quadra da escola é atingido mortalmente pela trave mal conservada do gol. A lâmina de aço que está sendo moldada para virar faca artesanal salta da roda onde é afiada e vai alojar-se precisamente na artéria femoral do fotógrafo, seccionando-a até que todo o sangue, feito água transbordante de rio caudaloso, esgote o existir.

Para morrer basta estar vivo, diz nosso espirituoso povo. Tenhamos zelo e cuidado conosco, com o outro. E depois de cada dia bem vivido, expressemos gratidão, pois quase sempre sem o saber escapamos de muitos perigos ao longo das horas.

Posto que a vulnerabilidade é um dos atributos da vida, celebremos a integridade de cada minuto.
 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras