Mico das Telas e Urso Polar

Por: Ligia Freitas

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-Alô, é da Organização Mundial da Saúde? Que história é essa de que crianças de dois a seis anos não podem ficar mais de uma hora na frente da televisão, de celular ou tablet? Querem acabar com a nossa salvação?

-Filho, fique quieto, não consigo ouvir o telefone. Ele sobe na cama do escritório e pega o meu globo terrestre no colo, gira-o com os dedinhos, toca o mundo com a palma das mãos, coloca o dedo indicador em Paris e ri para mim, eu respondo que é longe, enquanto ouço uma música chata tocar ao telefone.

Ele encana com o Hemisfério Norte, vejo-o conversando com o globo, eu respondo que lá tem urso polar. Ele imita um urso gigante e começa a me fazer cócegas nas pernas e diz que o urso quer comida, pulando igual a um canguru.

-Organização Mundial da Saúde, boa tarde.

Não consigo responder alô, estou concentrada em dar risadas e a nova atendente deve achar que está falando com uma louca varrida do outro lado da linha. Esse tal urso está utilizando suas artimanhas para ver a luz dos olhos meus se encontrarem com a luz dos olhos seus, mal sabe ele que o assunto é de extrema importância para a sua galáxia.

-Boa tarde Eduarda, desculpa, estava passando por uma situação delicada de pernas, quer dizer, uma situação delicada apenas, ou melhor, apenas engraçada. Bom, vou direto ao ponto: por que essa regra da OMS de apenas uma hora de uso de telas para crianças de três anos? Vocês querem por mais essa dívida na nossa conta de Mãe culpada?

-Minha senhora, é apenas uma orientação, hoje os pais acham que o filho está brincando porque está vendo outra criança brincar pela tela do celular, mas na verdade, esse é o auge da passividade, da dormência dos sentidos, é a morte da criatividade, do desejo de brincar com as próprias pernas e mãos.

-Mas todos nós assistíamos à tv quando éramos pequenos, Eduarda.

-Minha senhora, não assim, hoje há propagandas camufladas, um incentivo de consumo exagerado, as crianças se tornam produtos vendendo produtos e nossos filhos seres hipnotizados.

Tento mais uma pergunta à atendente, a meu favor, digo que a TV ajuda a desenvolver a fala.

-Não, minha senhora a fala se desenvolve pela interação social, a tela não reage, se a criança conversa não há resposta àquela ação. Os estudos dizem que as sinapses cerebrais de uma pessoa conectada a um celular assemelham-se ao estímulo tóxico de droga, basta deixar seu filho no celular por meia hora e depois tentar tirá-lo para ver a reação de um addicted.

-Verdade, isso já aconteceu com meu filho.

-Sem contar a enorme frustração que a criança se depara com a vida ao perceber que não consegue mudar as coisas com um simples toque dos dedinhos na tela da vida, a depressão infanto-juvenil tem aumentado e o uso do celular em demasia tem alarmado esse quadro, porque se cria uma bolha na palma das mãos.

-Então quer dizer que toda criança que usa telas será depressiva?

-As pessoas adoram um determinismo, se fulano fez isso será assim, se sicrano fez aquilo será assado, ninguém é apenas uma coisa e ponto, somos uma interação com o meio e o que há de mais importante na criação de um filho é a PRESENÇA, que não tem nada a ver com dar PRESENTE, a presença que eu digo vem do amor, do acolhimento, da conexão real dos pais com a criança, é a salvação para a humanidade que vive mergulhada no ódio, pode acreditar.

-Acredito. Digo com a voz embargada, querendo convidar a tal atendente Eduarda para uma palestra lá em casa. Sinto um aperto no coração tão grande que coloco o celular no chão, sem perceber que a deixei falando sozinha, para me tornar um mico leão dourado e fazer a luz dos olhos meus se casar com a luz dos olhos do meu amado urso polar.

-Alô, alô, senhora, vou entender esse silêncio como uma resposta: a senhora se desconectou para se conectar. A Organização Mundial da Saúde agradece a sua ligação, tenha uma boa conexão.


 

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