Querida

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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Pouca gente sabia a verdadeira identidade daquela colunista do Comércio da Franca que assinava Patrícia notas, notícias - algumas com fotos, mais tarde pequena coluna e depois, página inteira - cujos assuntos alimentavam rodas de conversa dos pobres mortais a respeito do beautiful people francano da época. A personagem aos poucos se tornou importante, a ponto de ditar ordens sociais, uma delas, que as mocinhas evitassem usar o casaquinho de fora do conjuntinho de ban-lon sobre vestidos, nas suas idas a bailes e brincadeiras dançantes, fossem realizados nos salão da AEC ou na quadra do Clube dos Bagres...

Eu não pertencia ao grupo sobre o qual ela falava mais, porém quando ela se revelou, ao acompanhar conversas maternas com as comadres, reconheci-a e passei a observar de longe aquela mulher corajosa, que enfrentava sociedade machista, preconceituosa e cheia de tabus, perfil da Franca daqueles idos finais dos anos 50. Acompanhei sua ascensão. Vi seu crescimento como pessoa, cidadã, ouvia os buchichos a respeito de sua atuação. Nossa! Ela deu guarida a francanos encrencados com a Revolução de 64! Virgem! Dizem que os filhos dela não gostam nem um pouco da notoriedade da mãe! Santa Mãe! Ela foi atacada novamente por gente invejosa de seu sucesso!

E por aí iam desairosos comentários sobre sua vida, enquanto ela desabrochava como a camélia, parecendo ignorar tudo. Pouca gente se importava com o trabalho de benemerência que ela desenvolvia silenciosamente junto a público que jamais apareceu na sua coluna de jornal. Do programa diário que tinha na rádio – que começava com a orquestra do Perez Prado mandando ver na rumba Patrícia, pseudônimo que adotou - cumprimentava e nominava pessoas que, literalmente, a idolatravam. Tornou-se a figura mais popular da cidade. Virou espécie de embaixatriz da cidade. Ainda realiza festa para homenagear pessoas que, muitas vezes vêm de longe para participar: hoje é fácil, mas não faz muito, a cidade estava bem fora do circuito adequado para visitação.

Particularmente acho impressionante sua transmutação, sua metamorfose de mulher a star hollywoodiana... Ela chega à cabeleireira de chinelos, cabeça lavada, óculos escuros, meio curvada que a coluna anda reclamando de suas proezas. Após a escova no cabelo faz maquiagem, troca o vestidinho por conjunto fashion, substitui a chinelinha por sapato da moda, troca a sacola por bolsa, não sem antes tirar de dentro dela, com toda magia e maestria, seus brincos, colares, pulseiras, óculos e ir colocando um a um, examinando-se no espelho a cada etapa de enfeitamento.

Olha-se no espelho, mede-se, aprova-se. Acabou de nascer ali a Patrícia que sai em desabalada carreira porque é dia de gravar, de escrever suas páginas, de acudir alguém que carece de algum favor seu. Às vezes chora suas perdas mas, inacreditavelmente, diz que ainda lhe sobra muito para louvar. Não conheço outro ser humano de tamanha grandeza, compreensão e tão capaz de agradecer outro ser humano por alguma gentileza que afirma não merecer. Ela é minha QUERIDA, comemorou 89 anos de vida, que nem sempre foram ensolarados e enfeitados com flores.
 

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