Caderno novo

Por: Sônia Machiavelli

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Crianças voltam às aulas e no alvoroço de início de ano letivo reúnem na véspera os cadernos novos. Meu neto me conta que os seus estão prontinhos, encapados e etiquetados com capricho por sua mãe, para a aventura do ir e vir dentro da pesada mochila de rodinhas que carrega tantas outras coisas sob a expressão “material escolar.”

Então a menina que em mim sobrevive viaja para esse espaço que não pertence à categoria de tempo, é antes um lugar de repente acessado por imagem, perfume, cor, pedaço de frase, canção, sineta. Ou, no caso, um caderno novo, cujo cheiro me lembra folhas de eucalipto. Encapado com papel pardo, meu nome está escrito embaixo, à direita. Foi comprado na livraria que se chama Gomes - já sei ler e vejo de longe a palavra preta na fachada. O caderno é do tipo brochura, tem 100 folhas e me faz pensar se escreverei em todas até o fim do segundo ano de grupo escolar.

Na classe só de meninas, eu o abrirei com muito cuidado, assim que a ordem emanar junto com o sorriso alegre da nossa professora. A primeira página branquinha me desperta admiração por tudo o que espera e fica suspenso num clima de encantamento. A folha virgem aguarda minha mão. Meus dedos seguram um lápis Johann Faber número dois. Gosto das palavras nele inscritas em cor dourada. Às vezes me distraio olhando para elas e fico imaginando o que significam. Vai demorar um pouco para que entenda que é marca famosa.

Alguém pergunta se podemos fazer cercadura na página inicial. “É que no primeiro ano a gente fazia”, diz uma voz tímida. A professora sorri de novo e nos dá dez minutos para a tarefa. Pego lápis de cor verde, faço hastes de planta imaginária que corre verticalmente ondeando pelo fio vermelho à esquerda e à direita. Traço folhinhas arredondadas e entre elas flores cor-de-rosa, recuperando a imagem de um buquê de amor-agarradinho que admirei na casa de uma vizinha. Minha colega de carteira esboça algo mais sofisticado e colorido: cachinhos de uva roxa, que acho lindos.

Terminado o tempo, somos convidadas a olhar para a lousa, onde a professora escreveu o cabeçalho (ainda direi “cabeçário” muitas vezes, até ser corrigida). Devemos copiá-lo. Ele será o ponto de partida para cada aula. A data, em primeiro lugar. Depois, nosso nome. Procuro deslizar o lápis com suavidade, caprichando nas vogais e consoantes, evitando a borracha que encarde a brancura da página. Parece que estou inaugurando um mundo novo e o ar que respiro sinto-o mais fresco que o habitual.

Assim, dia após dia, irei construindo conhecimento e datando-o. Cuidarei para que meu caderno se mantenha limpo, que a letra pareça cada vez melhor, que nunca seja necessário rabiscar uma palavra, que as orelhas não enfeiem pontas em ângulo reto.

Mas o Tempo, outro professor, me ensinará que isso será impossível. As maiores lições serão aprendidas com muitas rasuras, algumas marcas de lágrimas, sinais quase indecifráveis, e feias bordas enroladas pelo imponderável.
 

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