9 Mulheres e um homem

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

406475

Olho a foto da década de trinta, século passado. Nove mulheres, nove histórias, nove epopéias. Minha avó materna, Rita Francisca, conhecida como Ritinha sentada à direita da fotografia, com o segundo filho Francisco Emílio - que recebeu o nome do avô materno - no colo, e minha mãe, a menina Clara – que herdou o nome da avó paterna – à sua frente. Vovó contava que a foto foi tirada por fotógrafo profissional, em visita a Uberabinha. Devem ter tomado banho, puseram meias, sapato de ir à missa, vestido bonito, chapéu, pegaram suas bolsas. Vovó se lembrava que o profissional pôs a cabeça dentro da câmara escura por alguns instantes e em seguida disparou o botão da ponta de comprido fio ligado à máquina. É do fotógrafo, igualmente, o olho artístico que compôs a foto. A mais alta de todas, Didinha, no meio da linha do fundo, solene e poderosa. Foi ela quem, logo que a mãe morreu de parto no nascimento do oitavo filho - minha avó Rita Francisca - embora tivesse apenas dezesseis anos, assumiu todos os irmãos - a recém-nascida, Fia, Luísa, Antônio, Benedito e Carlos, e se tornou mãe deles. Aí veio Chiquinha, fora do casamento, que também foi criada por ela. Logo depois vieram para sua tutela, os filhos do segundo casamento do vovô Chico: Emílio, Helena, Oswaldo, Badiinha e Laura. Didinha era adorada e venerada como soe ser a matriarca de qualquer família.). Ainda na foto sépia, sentadas estão, na ponta à esquerda tia Fia, que cantava enquanto catava feijão e arroz na mesa da cozinha, onde eram feitas as refeições. Fazia todas as atividades domésticas sentada por causa de defeito congênito no pé, razão pela qual se tornou a mais a mais gorda entre as primas e irmãs. No centro, tia Ismênia, a mais rica delas, que não era consangüínea mas casada com tio Antônio, o de número seis, herdeiro do pai. À direita, vovó Ritinha com dois, dos três filhos. Na linha de trás, perpetuadas, as tias de nomes Cecília, Chiquinha, Didinha, Genoveva e Vovó ii de quem eu nunca soube o nome de verdade. Com exceção de Didinha, todas foram casadas e completaram Bodas de Ouro. Quase todas tiveram filhos. Não comemoravam o Dia da Mulher, isso não existia, mas o parentesco, a proximidade, o companheirismo, a alegria do encontro e o prazer de perpetuar o momento de descontração, não raro permeavam a alegria das festas que promoviam. Eram de forno e fogão, jamais reclamavam mesmo quando chegavam, no susto, mais de vinte pessoas para almoçar, sem qualquer aviso prévio. Tudo era motivo de alegria e comemoração. Existiam homossexuais entre eles, havia quem fosse fruto de casamento onde a miscigenação racial era visível e notória, gente com apelidos que eram considerados carinhosos e que faziam referência à aparência física ou detalhes fisionômicos: Taturana, por causa das grossas sobrancelhas; Bambu, o mais alto de todos; Cacique, para o tio Antônio, o Poderoso; Barão, para o primo mais sofisticado (e chato)... Ninguém perdia o humor, por causa deles. Essas imagens retrô me dão saudades de um tempo saudável e leve que, infelizmente, está cada vez mais longe.
 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras