Sombrinhas

Por: Sônia Machiavelli

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Nestes dias pluviais, depois de assistir na TV às cenas de sofrimento das pessoas tolhidas pelas enchentes nas maltratadas metrópoles brasileiras impermeabilizadas pelo asfalto, procurei um livro para acalmar a minha mente. Retirei da estante Uma História do Guarda-Chuva na Vida e na Literatura, de Marion Rankine. Pesquisadora, a inglesa resgata a trajetória de um objeto milenar que passou de religioso a profano e permanece firme neste nosso século. Feito com penas e couro para proteger reis e sacerdotes no Egito, sua matéria-prima na Grécia eram tecidos entremeados com ouro e sustentados por cabo de marfim. Como se sabe disso? Através da arte que registrou a vida dos povos. Um dos primeiros guarda-chuvas de que se tem notícia está nas mãos de um guerreiro do Exército de Terracota, aquele magnífico conjunto de esculturas do século lll a.C. descoberto na China em 1974.

Apesar do título, a autora fala mais é de sombrinhas, objeto feminino que custou a ganhar a versão masculina. E foi por aí que me lembrei das muitas que tive. Da primeira, não me esqueço. Era azul claro, estampada com flores de cerejeira, um presente no aniversário de dez anos. Adorava-a; ela tinha o condão de me fazer sentir japonesa. Aos doze tive outra, também azul, mas marinho, cabo de madeira que a diferenciava. Depois, me lembro de uma vermelha cor de cereja, outra marrom de bolinhas, mais a preta com um babadinho amarelo, que sempre achei cafona. Como em grande parte da vida precisei me locomover a pé, naturalmente tive dúzias de sombrinhas. Nos tempos de faculdade, uma forrada com seda e de discreto tom cinza aguentou chuvas torrenciais enquanto eu esperava ônibus na rua General Telles, defronte da antiga Casa Jahu. Desta sombrinha gostava tanto que levei para conserto numa oficina que existia na Rua do Comércio e pertencia, se não me engano, à família Casarotti. (Não façam contas, por favor!)

Nos resgates que às vezes me arrebatam, me pergunto qual terá sido o fim dessas que citei e de muitas outras. Constato que nunca foram trocadas por conta de pano rasgado, armação quebrada ou modelos compactos. Elas simplesmente foram esquecidas em algum lugar onde eu parei - e então, tchau e bênção.

Contei essa história a um amigo que ficou surpreso com a coincidência; ele também esquecera em lugares distintos e outros nem lembrados dezenas de guarda-chuvas ao longo da sua vida. Concluímos que a explicação estava em motivo bem comum: sempre deslembramos do objeto que nos protege quando ao sair de lugar onde entramos já não chove mais. A estiagem é bem-vinda, nos convida a caminhar com mais leveza, sem necessidade de carregar coisas. O cérebro deleta o objeto. Nós vamos; as sombrinhas e os guarda-chuvas ficam. Eles, que nos valeram para chegar, já não são necessários ao sair.

Um professor de ironia, leitor perspicaz de Machado de Assis, ouviu nossa conversa e comentou:

_”Mas é exatamente isso que acontece à maioria dos seres humanos. Atendidos em suas necessidades, esquecem imediatamente quem os socorreu.”

Nós nos entreolhamos, o amigo e eu, como se nos perguntássemos: Será?
 

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