Rebate falso

Por: Thereza Rici

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O caminhão encostou rente ao meio fio da calçada e todos desceram, inclusive Chico, que carregava junto com a marmita um saquinho de laranjas para Ritinha. Parou na esquina. Sentia um cansaço terrível nas pernas, pois trabalhara apertado para vencer sua tarefa. Tirou um cigarro do bolso, acendeu e antes de dar a primeira tragada, olhou para o céu e viu que o sol, naquela tarde de verão, levava ainda uma boa hora para ir embora.

Da esquina onde estava, fez um cálculo de quantos quarteirões teria de atravessar a Avenida Ademar de Barros para chegar em casa. Dava uns sete ou oito, não tinha certeza. O calor tirava a coragem de Chico de empreender a caminhada e evitando pensar nas implicâncias de Ritinha, entrou no boteco para marcar o ponto.

O sol já tinha ido embora e as estrelas já estavam presentes no céu, quando Chico empurrou a porta de sua casa. Entrou e, virando-se para fechá-la percebeu que em frente havia uma festa. Da fresta da porta, ficou por alguns segundos espiando o vai e vem das pessoas e ouvindo a música sertaneja espalhada no ar.

Estava ali com um olho enfiado na fresta, quando lembrou que não ouviu barulho na casa e começou a gritar por Ritinha. Largou a marmita na sala e enveredou por todos os cômodos procurando sua mulher e nada. Por fim já na cozinha, sentiu o cheiro gostoso da comida e do café. Com uma caneca cheia passou a saboreá-lo, enquanto imaginava onde teria ido sua mulher.

Sentiu fome. Foi até o fogão e, com uma faca, cortou um bom pedaço da carne cozida e passou a comê-la com gosto. Atravessou a cozinha e entrou na sala, quando viu que deixou a porta aberta. Aproximou-se para fechá-la, quando notou o quanto a festa estava animada. Encostou o ombro no umbral da porta e ficou observando. Flagrou-se pensando se Ritinha não estava lá dentro da casa se divertindo. Esse pensamento irritou Chico e uma raiva danada subiu pela garganta e baixinho balbuciou - se ela tivé naquela bagunça, vai me pagá.

Mas Chico sem querer ficou olhando um casal de namorados que saiu dentro da casa e se encaminhou para a rua, parando debaixo de uma árvore. De repente, observou que a moça trazia um lenço vermelho amarrado na cabeça, igualzinho o da Ritinha. Era magrinha e alta. Olhos pregados na moça, viu quando ela virou e beijou o rapaz. Abriu mais os olhos e para seu castigo teve certeza que era Ritinha. Pregado no chão da sala sentiu que ia morrer. Com o corpo trêmulo, a boca seca, procurou sair dali. Empurrou a porta para fechá-la e apagar a cena, quando percebeu algo em sua mão. Olhou, era a faca da cozinha.

Não teve dúvidas, escancarou a porta e numa corrida só, chegou onde estava a moça, enfiou a faca na sua barriga e, desabaladamente, fugiu do local. Enquanto corria ia dizendo “ela me traiu, ela me traiu”, embrenhando-se no mato.

Sentado no meio do mato bastante alto, depois de uma noite sem sono, procurou arrumar suas ideias, tinha de lembrar de alguém que pudesse lhe ajudar. Não podia ir para casa, mas também não queria ficar escondido. Era homem e não era covarde. De repente, lembrou-se que havia prestado serviço para um advogado e teve certeza que ele poderia lhe ajudar naquela aflição. Deixou o mato.

Era quase noite quando Chico se apresentou em frente ao Delegado de polícia e foi logo dizendo:- Matei minha mulhé, seu Delegado, é por isso que tou aqui.

- Como foi isso, seu Francisco?

Chico, dizendo-se arrependido, desfiou sua história.

O delegado levantou-se bruscamente, olhou para o Chico, pés descalço, sujos e feridos, as roupas rasgadas, cabelos empastados, a tristeza e solidão estampados no rosto, um farrapo.

Saiu da sala e em seguida voltou acompanhado de uma moça de seus trinta e poucos anos, alta, magra, com um lenço vermelho amarrado na cabeça.

- Senhor Francisco, conhece essa moça?

- Minha Nossa Senhora, essa é a Ritinha, minha mulhé. Então quem eu matei, seu Delegado? Meu Deus do céu, onde eu tava com a cabeça.

- Você não matou ninguém, Francisco. A moça que você feriu erradamente está bem. Mas cuidado para não beber demais.

- Bão, mas eu quero sabê onde Ritinha tava?

- Uai Chico, eu tava no velório do compadre Joaquim, ele morreu. O que é que você pensou, home, pra fazê uma besteira tão grande dessa?

- Nada não, vamo embora Ritinha.


   

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