Sonhos

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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Criança, sonhei com a boneca de porcelana vista na loja de brinquedos. Era linda, achava. Cor-de-rosa, boca vermelha, olhos azuis que se abriam e fechavam languidamente. Sobrancelhas. Um luxo! Vinha nua. As mães mandavam fazer ou faziam os vestidos para elas, geralmente réplicas daqueles que suas pequenas donas usariam no Natal ou no aniversário, naqueles dias de ganhar presentes. Quando percebi mamãe costurando a laise branca, quase desfaleci. Na hora percebi que ela estava empenhada em vestido pequeno que daria, no máximo, para cobrir alguma boneca. Não, não seria para nós. O súbito gesto materno de esconder o vestidinho foi revelador e deu-me confiança... Certeza: era para a boneca, que seria minha, decidi. Demorou demais para chegar o Natal. E eu não vi mais a boneca nem na loja, nem em casa, e olha que eu procurei... Com medo de perguntar e meu sonho se desfazer, dei um jeito de apascentar meu coração e tratei de esperar. Passei o período até o Natal escolhendo nome para a boneca, imaginando-me passeando com ela, levando-a para ver a banda na praça, brincando de casinha, ela a filhinha, eu a mamãe... Chegou o Natal e a decepção veio com ele: a boneca era para minha irmã. Eu ganhei um par de brincos de pérolas e nunca mais sonhei com boneca alguma. Não olhei para o presente de minha irmã e, quando ela me chamou para madrinha da boneca, recusei aceitar, se me lembro bem, até com raiva. Ela não tinha culpa, não sabia do meu desejo, mas interrompera meu doce sonho...

Bem mais tarde, desejei um par de sapatos de cetim para usar numa ocasião especial. No baile da minha formatura do ginásio. Meus pais lutavam para equilibrar o orçamento familiar, aqueles sapatos caros não cabiam nas contas de final de mês, nem no começo do mês seguinte. Mas eu queria, entende?

Sem aqueles sapatos meu baile seria uma porcaria e, depois, todas as meninas iriam estrear roupas e sapatos novos, e eu não? O vestido, mamãe faria, mas os sapatos? E eu passava em frente à sapataria, babava na vitrine. Ia buscar papai no banco onde trabalhava, que ficava na esquina da loja, onde meu sonho estava. Esperava-o na porta da loja, bem próximo de onde ele sairia. Aí, decidi que eu mesma daria um jeito de alcançar o montante para buscar os sapatos, que eu já considerava meus. Tratei de trabalhar. Saí oferecendo meus serviços de professora particular às mães que tinham filhos com dificuldades de aprendizagem.

Naquele tempo era permitido que menores trabalhassem. Comprei giz, lousinha e apagador, e lá fui eu ensinar tabuadas, acidentes geográficos, regras de acentuação, nomes das partes do corpo e suas funções. Três meses depois, fiz minha primeira compra feito gente grande. Entrei na loja, saí de lá extremamente orgulhosa de ter conseguido realizar, sozinha, meu primeiro sonho de consumo.

No caminho para casa, lembrei-me do sonho irrealizado da boneca e concluí, sonhos são importantes, devem caber dentro das nossas possibilidades. Mas, com empenho, podem virar realidade.

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