Pais e filhos

Por: Sônia Machiavelli

João Anzanello Carrascoza , 62, é paulista de Cravinhos, onde viveu infância entre gentes, árvores, casas , ruas tranquilas. Com o pai aprendeu a gostar de histórias; com a mãe, o prazer de ler os livros da biblioteca doméstica.

Formado em publicidade, trabalhou vinte anos em agências renomadas, até que resolveu se dedicar por inteiro à literatura. Os primeiros contos exploravam a dificuldade dos relacionamentos. Aos poucos, sua ficção foi mostrando narradores e personagens que comunicavam mais intensamente seus sentimentos. Trilogia do Adeus, por exemplo, traduz mútua aprendizagem sobre o incessante movimento da vida com suas pequenas, grandes e irrevogáveis despedidas.

O primeiro volume, Caderno de um ausente, coloca o leitor diante de temas como paternidade, família e afetos. O protagonista João, homem de cinquenta anos, ao se tonar pai pela segunda vez teme não viver o suficiente para criar a filha Beatriz. Então lhe escreve longa carta, aconselhando-a , por exemplo, “a colher a miudeza de cada instante, como se colhe o arroz nos campos, cozinhá-lo em fogo brando, e depois fazer com ele um banquete.”

Mas João viverá o suficiente para ver a filha moça. Beatriz e seu pai desenvolvem fortes vínculos que a farão escrever sobre a importância dele em sua vida, mesmo depois da morte. De destinatária, ela se torna narradora em Menina escrevendo com o pai: “A gente não tira férias da vida, a vida é a qualquer hora. Mesmo se a gente se atrasa para dizer algo que gostaria. Assim, nesse agora----- agora, eu digo ao meu pai, eu digo tudo que não disse naquela noite.”

A pele da terra, volume final, retrata um relacionamento que busca reparos entre Matheus e seu filho João (neto). Matheus é meio-irmão de Beatriz, fruto de casamento anterior do pai de ambos. Os dois homens empreendem peregrinação a Santiago de Compostela, seguindo setas que, se conduzem à Catedral, sinalizam também viagem ao interior de ambos. As conversas os aproximam e revelam a influência das gerações na vida de cada indivíduo, “porque quando uns chegam, outros já se foram, e o encontro só poderá se dar pela evocação das palavras”

A escrita lírica e delicada de Carrascoza se singulariza no contexto da literatura brasileira. Ela espelha um olhar que não aplaude rupturas, não mergulha em crueldades, não angustia o leitor com violência. Ela abrange a vida familiar, porque “cada escritor tem as suas obsessões e os seus limites. Somos o que somos, não o que gostaríamos de ser. E o que somos nos limita o olhar, embora também possa nos ampliar. Interessam-me as relações íntimas entre as pessoas, o pequeno grande mundo que as une, o oceano que há entre duas criaturas, frente a frente. E, para mim, essas relações se dão, invariavelmente, no âmbito das famílias, locus de todas as dores e de todos os amores.”

Trilogia do Adeus foi presente de amiga que quis apresentar a mim um nome que eu não conhecia. Amei o estilo, os temas, o cheiro de humanidade que evola de cada página.

Então, agradeço. Tão bom encontrar um escritor que nos fala ao coração!

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