O Alto do Espigão

Por: Thereza Rici

Valentina parou o carro em frente à praça, esperou que a poeira assentasse, em seguida desceu e examinou o local. Era uma praça pequena - venda, duas casas, igrejinha e escola. Na entrada, a placa com a frase: “BEM-VINDO AO ALTO DO ESPIGÃO”.

No lugar quase deserto, crianças brincavam no chão de terra batida. Duas pessoas conversavam na porta da venda. Ela se aproximou e perguntou-lhes se não havia hotel ou pensão por ali. Os dois homens se apresentaram como moradores. Como aquela era uma zona rural, não havia as acomodações procuradas. Perguntaram-lhe se iria permanecer no Espigão por muito tempo.

Ela respondeu que era professora e tinha vindo de sua cidade a fim de ministrar aulas para as crianças daquela região. Eles lhe desejaram bom trabalho e disseram que torciam para que ela ficasse, pois professor nenhum permanecia ali por muito tempo. Etelvina, que se encontrava no interior da venda, se aproximou e disse que as professoras que ali tinham estado antes haviam se hospedado em sua casa. Se Valentina fosse permanecer no Espigão, estava às ordens para servi-la.

Sem outra opção, a professora aceitou a hospedagem. A casa ficava nos fundos da venda e Etelvina explicou-lhe que era casada com Jeremias, tinha dois filhos adolescentes e aquela venda supria as necessidades dos locais. Disse ainda que havia na região muitas fazendas de café e uma turma grande de crianças para ensinar.

A escola era um salão improvisado, com quatro fileiras de carteiras, uma mesa, armário para guardar objetos pedagógicos, uma cadeira do professor, o quadro negro, e no fundo apenas um cômodo separado com vaso sanitário.

Eram dois os períodos de aulas. O da manhã, para crianças; o da tarde, para alfabetização de adultos. Iniciou seu trabalho e tudo corria bem. Apesar de ser zona rural, nos fins de semana a praça era festiva. Mas algo a incomodava. Para tirar suas dúvidas, logo que teve uma oportunidade perguntou para Etelvina porque os professores não permaneciam ali, se a escola era agradável e o povo hospitaleiro.

Etelvina tentou enrolar, mas Valentina insistiu. E a mulher acabou contando que o professor Amadeu, que vivera no Espigão por muitos anos e era muito querido no local, havia morrido dentro da escola. Uma noite não voltara para casa depois das aulas. Preocupado, o marido de Etelvina acabara indo à escola, encontrando o professor caído no chão. Tinha sofrido um colapso fulminante. Com o passar do tempo, as pessoas passaram a dizer que ao anoitecer Amadeu aparecia na porta da escola e ficava vigiando. Vários professores que chegavam para lecionar, logo iam embora.

Valentina olhou para Etelvina e perguntou:

- Você acredita nisso? Para mim é uma bobagem. Essas coisas não existem.

Etelvina completou dizendo que muita pessoas já tinham visto, por isso ela não abusava...

Valentina riu muito da história e esqueceu. O tempo passou. Numa noite de sexta-feira, quando deixava a escola, ao se virar para trancar a porta viu nitidamente um homem parado na frente do prédio. Lembrando-se da história, assustou-se. Apertou o passo e, ao chegar à venda, olhou de novo para trás e lá estava a figura estática no mesmo lugar.

- Etelvina, você tinha razão, eu vi o homem! Aqui não fico mais!

Arrumou as malas, deu adeus a todos e deixou o Espigão.

Surpreendida, a dona da casa gritou-lhe:

- Uai, você não disse que era bobagem?

Mas Valentina já ia longe.

  

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