Peleja

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

Foram poucas as vezes que andei pelo Piauí, mas voltaria, sempre que tivesse oportunidade. Certa vez minha visita foi rápida, só para fazer escala. Não desci, cheguei à porta do avião e o calor que veio de fora foi tão grande, que me recolhi, sentei e esperei... Anos depois, preparei malas para ir lá. Foi diferente. Direto para a capital, Teresina, nome que homenageia a imperatriz Teresa Cristina, que intercedeu junto a D. Pedro II a preparação da cidade para ser a capital do império. Teresina me recebeu sem a chuva freqüente por causa da vegetação intensa e da presença do rio Poty em cujas margens a cidade cresceu, e do Rio Parnaíba que forma delta considerado uma das mais belas paisagens do mundo. Visão que tira o fôlego do espectador. Está localizado na divisa entre o Maranhão e o Piauí. Voltemos a Teresina. Lembro-me ter visitado o museu da cidade, curiosíssimo. Teresina é chamada de Cidade Verde e é surpreendente e agradável andar pelas margens do rio Poty, que formam longa avenida com árvores em toda sua extensão. Não tive coragem de entrar pelo interior do estado, em busca do acervo de arte rupestre, um dos maiores das Américas. Folclore rico e linguajar às vezes indecifrável entre as pessoas. Lá existem pelejas, desafios entre dois cantores e tocadores de viola. Acompanhemos algumas estrofes da peleja famosa entre Zé Pretinho e o Cego Ederaldo, como incentivo para visita ao Piauí.

Zé Pretinho – Cego agora eu vou mudar pra uma que mete medo! Nunca achei um cantador que desmanchasse esse enredo. É um dedo, é um dado, é um dia. É um dado, é um dia, é um dedo.

Cego Aderaldo – Zé Pretinho teu enredo parece mais zombaria. Tu hoje é cego de raiva e o diabo será teu guia. É um dia, é um dado, é um dedo. É um dedo, é um dado, é um dia.

ZP – Cego respondeu bem, que só tinha estudado... Eu também por minha vez, canto meu verso aprumado. É um dia, é um dado, é um dedo. É um dedo, é um dia, é um dado.

CA – Daqui a pouco, Zé Pretinho, te faço ganhar o bredo. Sou bravo como leão, sou forte como um penedo! É um dedo, é um dado, é um dia. É um dado, é um dia, é um dedo.

ZP - Cego agora inventa uma das tuas belas tuadas, pra ver se estas moças dão alguma gargalhada. Todo mundo tem-se rido, só elas estão calada.

CA – Zé Pretinho eu não sei mesmo de você o que será. Arrependido do jogo você é quem vai ficar. Quem a paca cara compra cara paca pagará.

ZP – Cego fiquei apertado, que só um pinto no ovo. Tenho medo de sofrer vergonha diante do povo. Cego a história dessa paca, faz favor dizer de novo?

CA – Arre com tanto pedido desse preto capivara. Não tem quem cuspa para cima que não lhe caia na cara. Quem a paca cara compra pagará a paca cara.

CA – Digo uma e digo dez no falar eu tenho pompa. Presentemente não acho a quem martelo rompa: cara paca pagará quem a paca cara compra.

ZP – Cego, agora eu aprendi, cantarei a paca já! Tu pra mim é um burrego, no bico de um carcará. Quem a paca ... capa ... paca ... papa ... pa ...ca... cagará...

 

Gargalhadas retumbantes, Zé Pretinho, furioso, avançou para o Cego Aderaldo para agredi-lo. O povo não deixou, os dois fizeram as pazes e foram embora abraçados. Completamente bêbados.

 

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