Viajantes

Por: Sônia Machiavelli

407086

Aproveitei o Carnaval para maratonar, verbo que ganhou mais uma acepção nestes tempos de canais por streaming. Significa viajar numa série de cabo a rabo, sem interrupção, o que exige tempo. É boa opção para pessoas impacientes e ansiosas. Como eu.

Escolhi Outlander, da qual ouvira falar muito bem. Não conhecia a escritora Diana Gabaldon, em cujo romance se inspirou o roteirista R. Moore. Foi uma boa surpresa. A história se abre com a enfermeira Claire e seu marido Frank, ambos ingleses, viajando pela Escócia, no final da Segunda Guerra. Graças à magia de um círculo de pedras, a moça acaba retrocedendo 200 anos no tempo e se descobre sozinha em 1743, num país tumultuado pelos levantes contra a Inglaterra. Nesse contexto, conhece o guerreiro Jamie e o capitão Jonathan. Mais que uma história de amor, é uma narrativa épica que em Portugal ganhou o título de Viajante do Tempo. No Brasil foi mantido o original que traduzido poderia ser Forasteira.

A maioria das filmagens aconteceu em Edimburgo e arredores, o que carimbou o ar histórico. À medida que ia assistindo, eu revia paisagens de tirar o fôlego e pensava em Mary Stuart, figura trágica que às vezes reaparecia nas falas dos escoceses ruivos, valentes, insaciáveis bebedores de uísque. Tocando piob-mhòr, a gaita das Highlands, fora das lutas lá estavam eles em festas e feiras, destilando seu humor rude e desfilando kilts- aquelas saias de lã curtas, no xadrez dito tartan.

Voltei a pensar na Escócia que havia conhecido há muitos anos, admirada diante de suas extensas planícies, muitas montanhas, lagos gelados. E castelos, ruinas, ruas estreitas, casas de pedra, pegadas de escritores que sempre admirei - Stevenson, J.M. Barrie , Conan Doyle, Walter Scott. Cada episódio funcionou para mim como o amontoado de pedras que conduzira Claire àquela cultura gaélica.

Recordo-me nitidamente do último dia dessa viagem única. Como Edimburgo fora designada recentemente a primeira “Cidade de Literatura” pela Unesco, buscamos uns trajetos que confirmassem o título. Entre prédios antigos e construções medievais, marcados por frases autorais, percebemos como escritores e livros faziam parte da vida do povo. Não à toa, e só soubemos àquela altura, a Escócia tinha sido o primeiro país da Europa a tornar obrigatório, no final do século XV, o ensino primário. Quem chega de fora pode descobrir novidades que aos de dentro soam óbvias porque sedimentadas pelo tempo.

Cansadas de andar, minha amiga Y**** e eu entramos no ônibus que nos levaria ao hotel. Sentadas junto à janela, íamos olhando a paisagem urbana, e as gentes tão diferentes das dos trópicos, quando o veículo parou para apanhar uma passageira e vimos um típico escocês na calçada. De meia idade, gordinho, bigodes grisalhos, cabelos fartos, surpreso com os turistas, ele nos fitou. Foi quando Y****, olhar forasteiro, me perguntou: “- Será que eles usam cueca debaixo do kilt?” Como se entendesse o idioma português e a linguagem labial, o homem respondeu no mesmo instante, levantando a saia com as duas mãos.

Não. Ele não usava nada debaixo do kilt. Que era vermelho e roxo.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras