Cura literária

Por: Angela Gasparetto

407087

Algumas pessoas quando se entristecem procuram diversas maneiras de espairecer, tais como viajar, nadar, dançar, escalar uma montanha, etc; já eu vou à Biblioteca Municipal.

E espero que esta confissão não passe uma imagem minha de pessoa pedante, pretensa à intelectual ortodoxa. Mas é para lá que eu vou. O ambiente me acalma e equilibra. E embora não seja mais tão “rata de biblioteca” como costumava ser, estar lá assemelha-se a uma volta para casa, ao reencontro do meu núcleo real.

E caminhando por entre as prateleiras vou esbarrando nos meus amigos antigos, nos mais recentes e naqueles que namoro à distância e prometo mentalmente que ainda os lerei.

Recentemente estava precisando desse passeio à biblioteca para que pudesse centralizar os caminhos.

E recordei que na minha época tínhamos que ler autores como José de Alencar, Joaquim Manuel Macedo, Machado de Assis, etc. E apesar de algumas vezes torcermos o nariz - confesso que raramente eu torcia, até porque os livros eram a minha onda - era de suma importância aquele primeiro contato.

Depois vieram as edições chamadas Para gostar de ler que reuniam Rubem Braga, Carlos Drummond e Andrade, Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino. Foi o meu primeiro contato com as crônicas e com esses autores, e só posso afirmar que foi puro deleite.

Divagando entre as prateleiras vi que Dostoievski ainda está lá, a coleção inteira de Proust, e Clarice Lispector acena com todas as suas obras que ainda almejo finalizar. Saber que ainda estão lá, não sei por quê me conforta e dá uma sensação de segurança.

E nessas andanças e divagações, topei, como se diz em Minas, com meu amigo querido Fernando Sabino.

Havia tempos que não o lia, desde a sua morte em 2004. Eu sofria de um tipo específico de bloqueio sentimental-literário, e achei que seria sofrido demais voltar a lê-lo, sabendo que ele não se encontra mais aqui.

Coisas de uma insana e fanática leitora. Mas enfim, namorando seus livros, encontrei um que achava que não havia lido ainda, chamava-se A falta que ela me faz, e na hora sorri fazendo um trocadilho mental que, na realidade era “a falta que ele, Sabino, me faz”. E pegando um, pegando outro e folheando alguns, percebi que meu coração foi se enchendo de alegria, sorrisos bobos e conforto necessário. Pois ele ainda se encontrava ali e para sempre!

De repente achei uma daquelas edições que além de interessante, tinha cheirinho de livro antigo com sabor de adolescência. Pronto, peguei o livro, coloquei junto ao coração e saí totalmente consolada da biblioteca. Fomos embora, eu, Fernando Sabino e a tristeza.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras