Violências

Por: Maria Luiza Salomão

407089

Quando descobri a internet, “vi” infinitas possibilidades.

Vibrei!

Acho que delirei: nova era de comunicação entre todos! A palavra net significa rede, teia; pensei pontes/conexões/caminhos que se cruzam-enlaçam-interceptam-paralelam- democratizam...

(mas nada é simples, entre humanos).

Inter-net - entre redes: espaço que une/separa; separa/une. Uma “barreira de contato”, expressão freudiana, do fim do século XIX - beleza de síntese, em três palavrinhas, do psicanalista!

Veio o uso... e o abuso. Torre de Babel ampliada: algaravias, xingos, mentiras, distorções, ataques ferozes, esparramos anônimos, hipocrisias, falsos endereços.

(se era com-tato, tornou-se também destrato, sem tato)

Tecnologia estende a potência (des) humana. Como óculos, a visão; microfone, a voz; eletricidade, a luz. Quem tem violência, mais violência expande. Quem tem amor, mais amor; inveja, mais inveja...

Tecnologia é instrumental. Funciona para o bem/ para o mal.

(palavras tecladas, imagens, áudios, atingem milhares, milhões de humanos).

Uso a internet. Agraciam-me diálogos/reflexões/ecos de angústias, alegrias, tristezas. Acompanham-me palavras solidárias/fios escolhidos/ bordados de amizade e ternura. Pontes se fazem, liames se consolidam. Construí trilhas/amizades não imaginadas/ fronteiras abertas e respeitosas/atalhos de (re)conhecimento. Álbuns de imagens/ fragmentos de vida/ trocas frutíferas/amor aos pedaços.

(sou operária formiga abelha cigarra macaca).

Vivi, certo dia, violência internáutica. Cobrança agressiva/desconhecida voz. Não a conheço, a pessoa não me conhece/achada em rede social!

(Violada).

Busco, longe de fundamentalismos (evito políticos/seitas religiosas/ agrupamentos separatistas/racistas), disciplinadamente, ser ecumênica, isto é, busco concílios de habitáveis tempos e espaços, para mim, para todos. Sol para todos.

(Arte, engenho).

(mas internet cria solidões incomensuráveis).

Sem me conhecer, sem que eu a conheça, a voz sem semblante se arvorou o direito de violar minha intimidade. Como se o “mundo” lhe devesse algo. O quê, quem? Por que o mundo deve algo a alguém?

(a infância, diz Paulo Mendes Campos, é quando se pensa ter tudo de graça).

 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras