Nzinga

Por: Sônia Machiavelli

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Uma estátua humana de aço escovado com dez metros de altura, postada sobre um bloco de granito, olha o trânsito conturbado do litoral sul de Luanda e também as praias que se alongam rumo ao horizonte. A fisionomia é determinada. A mão direita empunha um machado. O nome está inscrito na base: Nzinga Mband.

O monumento foi erguido em 1975, ano da independência de Angola, país que sofreu os horrores do longo período em que esteve sob domínio português. O refrão de uma canção popular antiga, traz a metáfora de um jogo de bola : “A cada hora/ rola uma cabeça/ no chão de Angola”. Cabeças dos negros que se insurgiram contra a crueldade extrema dos colonizadores.

Pode parecer que falar dessa mulher do século XVII seja algo extemporâneo e fora de contexto hoje. Para desfazer a impressão, conste-se o fato de que ela nasceu no reino de Ndongo, de língua bantu, o mesmo dos que, escravizados no Brasil, criaram o samba. Seu povo está, portanto, na raiz da nossa identidade nacional.

Desde cedo Nzinga (1582-1663) teve de aturar forte oposição por ser mulher numa cultura machista. Quando seu pai morreu, embora ela tivesse sido educada para assumir o trono, foi o irmão Kia Mbamd quem o fez. Ele mandou matar o filho único de Nzinga, o que a transformou numa líder feroz que depôs o novo rei e encarou lutas tribais. Porém, o mais difícil na sua trajetória foi enfrentar os portugueses a quem odiava e contra os quais uniu-se aos holandeses durante anos.

As façanhas extraordinárias dessa mulher incomum, que em encontros diplomáticos se vestia com tecidos finos e na selva usava peles de animais, autorizam a pensar em lendas. Entretanto, documentos preservados e assinados por militares e missionários, além de cartas do próprio punho (um espanto!) de Nzinga, certificam a veracidade histórica.

O napolitano Antonio de Gaeta diz que “ela se cobria de joias e adereços de ouro, prata, cobre, ferro e corais (...). A certa altura, decidiu que não seria mais chamada de rainha e sim de rei. Passou a vestir-se como homem e exigia que os amantes trajassem roupas femininas.” O holandês Olffert Dapper a descreve aos sessenta anos como símbolo de resistência, “tendo na mão arco e flechas, dançando ao som de dois sinos de ferro com tanta agilidade como se jovem fosse.” No excelente Escravidão, de Laurentino Gomes, recém-lançado , há o registro de que ela foi capaz de descer de um penhasco altíssimo, contra o qual estava encurralada, usando cipós para chegar ao fundo do vale na região de Canguela, na batalha de 26 de maio de 1629. Na biografia Jinga de Angola a norte-americana Linda Heywood destaca a impressionante capacidade de luta de Nzinga, reforçando que “ela tentou inverter com estratégias inesperadas a lógica colonial.” Acho que poderíamos dizer que o preconceito de gênero também.

A estátua diante da fortaleza de São Miguel lhe faz justiça lembrando uma frase de Freud: “Somos feitas de carne, mas devemos viver como se fôssemos de aço”. O uso do feminino é licença poética neste dia 8 de março.


 

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