Viagem internacional

Por: Roberto de Paula Barbosa

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De vez em quando nós precisamos nos livrar de diversos trastes que acumulamos durante a nossa existência, além de papéis, contas, extratos, recibos e, principalmente, de mágoas, frustrações, represálias, raiva e ira; devemos nos livrar também de amores, afeições, amizades, traições a que nos foram impingidas no passado e que hoje nada representam. Durante um desses expurgos, de papéis, por enquanto, ocorreu-me um caso que não pude expurgar de minha memória, que ainda não foi tocada pelo mal de algum alemão, que costuma nomear algumas doenças que se curam apenas ao findar a nossa existência.

Lá pelos meados do ano de 1964, quando iniciava minha carreira de bancário em Foz do Iguaçu, no Paraná, o chefe da Carteira Agrícola, o Felipe, dono de um possante fusquinha, quase novo, resolveu fazer uma viagem internacional até Assunção, Capital do Paraguai, com o objetivo de, além do turismo, fazer a compra de um moderno rádio AM e FM e, suprassumo da modernidade, com toca-fitas cassete, o famoso K7.

Para fazer-lhe companhia e rachar as despesas, convidou mais três colegas: o Roberto, meu xará, o Mosca e o Queiroz. Eu, doidinho para fazer minha primeira viagem internacional, fiquei rodeando o Felipe quando me disse que se alguém cedesse o lugar ele me levaria; o Queiroz, muito muquirana, não estava a fim de ir, pois a rédea doméstica estava retesada, então me disse que venderia o lugar dele. Combinado o preço não titubeei em comprar meu assento.

No dia da viagem, um feriado na sexta-feira, levantamos bem cedinho, embarcamos numa balsa para atravessarmos o Rio Paraná – naquela época a Ponte da Amizade ainda não estava pronta, cuja inauguração somente se deu em 27/03/1965 – e partimos rumo à capital paraguaia em uma jornada de cerca de 340 km em asfalto precário, mas com pouco movimento. Chegamos na hora da sesta e aguardamos a loja de acessórios para carro abrir. Enquanto aguardávamos, um rapaz muito simpático e bem apessoado aproximou-se e, num portunhol quase perfeito, disse que lhe chamavam de Totito e havia morado alguns meses em São Paulo e que gostava imensamente dos brasileiros. Após alguns minutos de conversa ele nos convidou para uma parrillada que haveria no dia seguinte na fazenda de seu tio, que criava gado premiado em exposições e feiras, em comemoração a algum prêmio conquistado pelos seus animais.

Como não havia nada programado aceitamos o convite e, no dia seguinte, após o café da manhã, o Totito, ao lado do Felipe, levou-nos à Fazenda de seu tio e, para nossa surpresa, o ambiente estava preparado para uma grande festa sob as árvores, com mesas arrumadas com esmero, os cozinheiros e churrasqueiros numa movimentação frenética, um conjunto musical típico paraguaio afinava suas harpas e violões; fomos apresentados e muito bem recebidos pelo Tio e sua família; já em seguida foram servidos os aperitivos e bebidas das mais variadas, desde a Caña Paraguaya Aristócrata até os mais badalados Whiskys e Whikeys.

Já estávamos enturmados e, por que não dizer, bem altos, quando a filha do Tio sai de casa, com um andar angelical, vestida com um longo branco e cheio de rendas, perfeitamente moldado ao seu corpo escultural, cabelos compridos, lisos e negros como a graúna, rosto moreno, olhos amendoados, lábios grossos e um sorriso de fazer inveja a uma Júlia Roberts; num primeiro momento ficamos extasiados e com cara de mais bobos do que já o éramos. Ela cumprimentou a todos com efusiva alegria e deixou-nos mais à vontade do que já estávamos. O Felipe, mais velho e mais experiente, não perdeu um segundo e já entabulou uma conversa mais íntima e se afastou para alguma sombra refrescante.

O almoço transcorreu dentro de um ambiente acolhedor, alegre e festivo, com alguns discursos e muita música típica, e todas as pessoas confraternizando-se como se já conhecessem há muito tempo. Fomos alvos de uma atenção especial, pois éramos estrangeiros e eles quiseram demonstrar o carinho e a hospitalidade paraguaia. À tarde, com o sol já quase se pondo, agradecemos imensamente a acolhida e depois de efusivos abraços e despedidas voltamos ao hotel, guiados pelo nosso cicerone Totito, que se dispôs ainda a nos levar a uma casa de espetáculos e danças típicas.

Mais tarde, após o banho e um pequeno descanso, Totito retornou e nos levou a um bom restaurante e casa de espetáculos, onde um Trio – harpa e dois violões – dava uma bela apresentação. Após o jantar e depois de ter tomado todas, notamos que o Felipe estava meio acabrunhado e apaixonado. Já passava de uma hora da matina, a casa prestes a fechar, o Felipe pediu ao Mosca ver se o conjunto paraguaio faria uma serenata. Diante da resposta afirmativa e combinado o preço, o Mosca ainda tentou convencer o Felipe de que o valor de G$ 15.000 era um absurdo e que não valia a pena. Felipe não quis discutir. Mandou chamar um táxi enorme, tipo um Chevrolet Impala, acomodou o trio com seus instrumentos e partimos para a Fazenda do Tio, com o apoio incondicional do Totito. Lá pelas duas horas chegamos à Fazenda, os cachorros foram acalmados pelo sobrinho, o trio paraguaio se preparou e, sob o clarão da lua cheia, próximo à sede da fazenda, o conjunto dedilhou a harpa e violões, buscando no fundo de seu repertório as músicas mais românticas que eu já tinha ouvido.

Logo as luzes foram se acendendo, as portas se abrindo e as pessoas apareceram e, principalmente, a morena pela qual o Felipe tinha se amoriscado, com a mesma beleza da tarde e com hálito de Kolynos. Fomos convidados a adentrar a sala e logo apareceu um café bem quente, acompanhado com biscoitos e quitutes os mais variados. Na verdade nem vimos o Felipe e a morena, que se afastaram nas penumbras da varanda e das árvores.

Após a seresta e despedidas, os músicos despachados, esprememo-nos no fusca e o Totito foi à frente, junto com o motorista Felipe. Depois de alguns quilômetros, numa estrada deserta, o Totito, aproveitando a fragilidade amorosa e a excitação que devia estar passando o Felipe, passando o braço por sobre a sua nuca e puxando-lhe o rosto, cascou-lhe um ardente beijo na boca, invocando Scarlett O’Hara e Rhett Butler em E O Vento Levou. Por pouco não capotamos o carro e, após parar, escutei os mais sórdidos impropérios e xingamentos que jamais havia ferido os meus ouvidos. Acredito que, se fosse hoje, o Felipe acharia normal, mas naquela época, alguém sair do armário desse modo era inusitado. Se nos dias atuais, o Felipe seria processado, julgado e condenado por homofobia.

Voltamos ao hotel. No dia seguinte, acordamos bem tarde e, após o almoço, partimos para vencer os mais de 300 km de distância, já que na segunda-feira teríamos que assinar o ponto. Durante a madrugada o tempo fechou e uma frente fria vinda do sul, enevoou nosso trajeto e, devido ao frio enregelante, fomos obrigados a procurar abrigo em alguma pousada nalgum lugarejo no meio do caminho. No dia seguinte encetamos a segunda fase de nossa jornada e conseguimos chegar antes de abrir o expediente.

Cada qual assumiu suas funções, apenas o chefe não parava de ir ao banheiro para lavar a boca, sempre que se lembrava do ósculomeloso do primo de sua amada.


 

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