Natureza

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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Não importa. Por mais que compartilhem conosco e nos descrevam sentimentos que despertam do mais profundo da alma quando em contato com a natureza selvagem e que subitamente afloram nas lembranças; não importa quantas pessoas estejam ao redor, até bem próximas fisicamente, quando se consegue subir bem alto e olhar o mundo de cima, a sensação é de total solidão. Total silêncio. Total liberdade. Nesse exato momento, você escuta todas as melodias que ouviu durante sua vida, que marcaram seus momentos, e que vêm a galope, acompanhando o galope do vento. Elas trazem lembranças das mais diferentes situações. Lá em cima, você respira fundo, fixa seus olhos em determinado ponto e perde a noção do tempo, porque o que importa é perscrutar minuciosamente cada cena, tentar conhecer e procurar penetrar no segredo das coisas. E, ainda olhando em linha reta, vai de determinado ponto até o final, quando os olhos fecham, quando a respiração retoma o ritmo. Aí você volta para a Terra e retém na memória todos os pixels das imagens que permanecerão na sua retina, por mais que você seja afortunado e possa ver outras paisagens ao longo do grande passeio de sua vida. Há muitos outros momentos mágicos durante os passeios pela Patagônia. Muitos outros. Olha-se em determinada direção e subitamente muda o cenário. Descortinam-se à sua frente geleiras, lagos congelados, praias desertas, animais soltos na natureza em total liberdade. Vegetação rasteira, ventos que assoviam, montanhas cobertas de neve. Tudo junto e misturado ou em diferentes configurações. Escondidos nas poucas e baixas árvores, geralmente nas bordas dos lagos, há passarinhos que, por não serem importunados, cantam à vontade. O alarido humano torna-se totalmente dispensável. No barco que passa lentamente próximo às geleiras, você estende o braço e pode pegar pedaço de gelo recém desprendido da parede de água congelada. Geleiras de centenas de milhares de anos. Gelo de milhares de ano. Pega copo cheio de whisky, põe o gelo dentro e brinda. Brinda à beleza do lugar; a Deus, responsável pelas surpresas; ao desconhecido que entrou no mesmo barco e se mostra tão maravilhado e surpreso quanto você. Você desce do barco, caminha por trilhas anteriormente determinada por caminheiros que jamais conhecerá. Anda muitos metros, sobe uma ladeira e, surpresa! Dá com pedra imensa, de centenas de milhares de anos, milagrosamente apoiada sobre a beira de precipício. Tem formato de seio, acho, esculpido durante séculos, por artesão ou artista. Sobre a pedra, outra menor, embora pesada que lembra aréola do seio feminino e, ainda sobre todas, a menor, cujo formato é de um mamilo. Fico emocionada e percebo que ali estaria homenagem à natureza que é mulher que cria, gera, faz nascer, reproduz. Fico sem ar e não explico: são elucubrações minhas, pessoais. O conceito de tempo novamente embaralha-se na minha cabeça, lembro que cada grão de areia é milhares de anos mais velho que eu. E a sensação de pertencer a um mundo sem idade que eu consiga precisar, novamente me apavora. (Acho que Deus existe...)
 

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