Lições

Por: Sônia Machiavelli

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O século XXI não começou no raiar do redondo ano 2000, aguardado então com ansiedade pelos que seguem o calendário gregoriano. Mais que início de um bloco de cem anos, era um milênio que se abria e, eufóricos, ingressamos na nova era. Que estávamos iludidos em nossos anseios por um período menos turbulento, só a história contaria. A grande virada chegou em 2001, com o ataque às Torres Gêmeas, quando a paz no Ocidente foi fraturada. Desde então temos sido testemunhas de um mundo que veio alargando as diferenças, retrocedendo nas liberdades, alimentando ódios num processo intensificado pela rapidez da revolução tecnológica. Os últimos dezoito anos reconfiguraram a maneira de viver e se comunicar dos habitantes do planeta. E quando nos achávamos ligeiramente confortáveis, num triz fomos acossados por algo impensável. Em janeiro um chinês se contaminou com vírus de animal silvestre e, a partir daí, não houve mais tranquilidade para humanos. Entramos às cegas na guerra contra inimigo invisível- o coronavírus.

Como a única atitude neste momento em que não há vacinas nem remédios é o chamado isolamento social, os que acreditam na ciência se recolhem. Para muitos isso não é fácil, causa transtornos emocionais. Para outros, abrem-se possibilidades. Leem, escrevem, veem filmes. Colaboram na manutenção da ordem doméstica, conversam mais com filhos, expressam seus medos através de mensagens digitais. Crianças enviam mensagens aos avós, renovam brincadeiras, fazem inusitadas festas de aniversário pela web. Aprende-se a comprar menos comida, banindo os excessos, e se adquire o hábito de pedir remédios só pelo delivery. O médico é consultado por vídeo e assim se conversa também com o psicólogo. Isolados, mas conectados, humanos não adoecem na solidão.

Um movimento de empatia pelo outro aparece nos grupos de WhatsApp da classe média que reúnem cestas básicas para os necessitados, fazem compras para idosos em quarentena, se oferecem para ajudar em várias frentes. Cientistas de todas as latitudes trocam informações a respeito de suas descobertas na busca por remédios e vacinas. Conectados, mesmo isolados, fazem a diferença quando avança doença tão perturbadora que nem mesmo a última despedida, ritual comum a todas as culturas, ela concede aos enlutados. Quando não incinerados, corpos são sepultados apenas na presença de coveiros paramentados como personagens de ficção científica.

É muita dor. Mas dela já nascem reflexões. Depois da pandemia, a China não poderá continuar a produzir 95% das máscaras cirúrgicas usadas no mundo; nem a Índia, 90% dos sais utilizados nos laboratórios para a fabricação de medicamento; nem a cegueira de governos estúpidos será mais pedra no meio do caminho da Ciência. Depois da Covid-19, as pessoas talvez se aproximem mais de si mesmas e de outros, busquem um convívio mais verdadeiro, desgrudem um pouco de seus celulares, mantenham a solidariedade na agenda diária, ouçam a voz dos milhões que sofrem as agruras da pobreza e se comovam com eles, atentem para a própria fragilidade e percam um pouco da arrogância que caracteriza nossa espécie.

O mundo não vai mudar, como andam repetindo. O mundo já está mudando pela segunda vez neste século. Quero acreditar que seja para melhor.

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