O Poço

Por: Janaina Leão

408058

“É no risco que habita a ganância. Disseram sobre aquele que montou uma cantina no meio da guerra”

É um ditado popular guarani. Aprendi quando me casei com uma paraguaia.

Por esses dias assisti ao filme O Poço. Está dando o que falar. Muitos amigos vieram me perguntar o que achei. Eu que não tinha visto, acabei assistindo mais pela curiosidade sobre o alarde em torno da película. As pessoas se identificaram! Vem daí tamanha comoção. Caiu como uma luva, um espelho para a sociedade em que vivemos, e seus valores- quantitativos.

Vivemos uma época de pandemia. Eu que conhecia isso somente através dos livros de história e dos filmes e livros catastróficos, hoje sinto na pele (com álcool gel) o que é estar num mundo/poço, onde os do Topo têm mais que os do Fundo, contrariando algo que para mim é Ethos/ético: se agarram a seus pratos/poderes/bens, isolando-se assim do que é Coletivo - condenando quem não tem a não ter nunca, como numa maldição.

O mundo se dividiu, bem antes da pandemia, entre privilegiados e desgraçados.

Meu espaço aqui é pequeno, terei que sintetizar o que eu ficaria ao menos seis horas divagando. Li uma vez num muro pichado que “Rico é quem precisa de pouco”. Guardem essa frase.

Na 8ª série li O Manifesto Comunista. Não entendi muito bem, mas senti e aquilo aqueceu meu coração. “Comum a Todos”, que legal seria se todos tivéssemos exatamente a mesma porção de riquezas e não faltasse a ninguém. Isso sempre me comoveu. Eu sou aquela pessoa que anda sempre com a mesma roupa, nunca tive tênis de marca e adoro ser útil, cometo gentilezas, aposto na caridade e na partilha. Não sou santa, mas meu sonho não é ganhar na Mega Sena (nem sei o que faria com tanto) - é só morar numa roça, e um dia isso há de vingar, mas não agora...

O meu “agora” tem pessoas acima de mim, preocupadas com os comunistas e com quanto irão perder de suas riquezas, enquanto outras, abaixo de mim morrem de fome há séculos...

Eu nesse meio tento, sem pegar um porrete como fez o protagonista do filme, ou como fazem os ditadores comunistas- conscientizar as pessoas a meu redor sobre a importância do coletivo e da colaboração mútua.

Saber “cuidar”... já dizia o Boff: tão necessário isso que perdemos há tanto tempo. Cuidamos melhor do celular do que dos nossos avós.

O que vejo é desolador: ao passo que milhares morrem, vários donos de cantina lucram com a guerra.

Se existe uma esperança assim como no filme eu não sei, mas vou confabular:

- Aquela menina simboliza o novo ser humano, que vai crescer em meio à guerra, mas optará em dividir o pão, ao invés de acumulá-lo. Fará isso por consciência e não ameaça. Será mais resistente, terá ética e respeito pelo ambiente em que vive e pelas pessoas a seu redor e entenderá finalmente que estamos todos no mesmo poço.

Ou não... E o Covid 19, alimentado e fortalecido pela ganância do homem, será mesmo uma espécie de Apocalipse. 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras