Aquarela da Quarentena

Por: Ligia Freitas

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Admiro a arte de pintar, tecer palavras em tons multicoloridos nunca foi o meu forte, não tenho técnica, dom artístico, nem tampouco habilidade manual. Mas em tempos de quarentena tudo é possível para nos reinventarmos.

Enquanto brincava de tinta no chão com o meu filho, resolvi dar outra utilidade às minhas ásperas mãos (de tanto usá-las para higienizar a casa ou elas mesmas com álcool gel) e me joguei num quadro branco, tal qual anda minha vidinha monótona, por uma boa causa obviamente e deixei as cores dançarem ao som da aquarela dos meus sentimentos. No final um alívio: vivi a arte da libertação do ser humano, conheci a verdadeira liberdade que mora em mim, sem precisar sair de casa.

Depois da entrega, um merecido banho quente para tentar relaxar, eu disse tentar, porque nem sempre é possível com um filho de três anos confinado esmurrando a porta do banheiro por atenção. Andando com a toalha nos cabelos, dobrando roupas já lavadas, calçando os chinelos (meu amigo inseparável há dias) tropecei na tal tela pintada que havia esquecido no chão.

Peguei-a com um olhar de espanto, ao embarcar numa observação de divã para a minha “obra nada prima”: enxerguei um conflito- perguntei-me se seria dentro ou fora de casa, pouco importava, precisava entender mais daquele desenho- então eu vi um imenso céu tenebroso, com ares de tempestade tomando conta do papel e um tímido nascer de raios solares e rabiscos da paz.

Se essa é a guerra das galáxias, das famílias, dos homens, ou do mais terrível mal de todos os tempos eu não sei, só sei que eu preciso acreditar na força dos rabiscos da paz e dos raios solares.

Assim como o sol é capaz de renascer a cada dia, nós também somos capazes de nos reinventarmos a cada manhã. Não, não temos escolha, a tempestade inevitavelmente cairá sobre nós, cabe-nos decidirmos se mergulharemos na nossa bacia da alma ou se nos afogaremos no nosso próprio copo d’água.


 

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