De passagem

Por: Baltazar Gonçalves

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O que nos afeta muda nosso jeito de olhar. Nos últimos meses, enquanto progressivamente nos isolamos dentro de casa, um ser microscópico tem passe livre e reescreve os manuais de convivência. Inúmeras histórias serão contadas em novo capítulo da História da Vida Privada. Essa geração ficará marcada como aquela que repensou o valor relativo que as coisas possuem. 

Outro dia fui ao mercado, saí do isolamento. Comprei o necessário, coisas que precisava repor em casa. Sai de fininho e já voltava pra casa quando vi a cena: marido e esposa lavando o carro na calçada.

O cotidiano é mesmo raro, basta olhar de perto. Nem sempre prestamos atenção nos detalhes e o que seria exemplar cai no lugar comum. Com as sacolas na mão, caminhava devagar. Meu pensamento a desembrulhar ideias vasculhava os processos de longa duração no tempo que transformaram objetos em sonho de consumo e pessoas em coisas que descartamos – carro, calçada, água, matrimônio.

A cena despertou minha atenção quando o marido gritou com a mulher que usava uma vassoura de pelos para ensaboar o carro. O grito paralisou meus passos, abriu meus olhos. O grito era xingamento, advertência, brutalidade. A mulher estava ajudando, ele não percebia. Talvez o marido visse o carro como ente da família e a esposa não passasse de objeto atrapalhando sua relação afetiva com o automóvel. Quando foi que passamos a considerar gente como objeto, coisa ou mercadoria? Em meus pensamentos embrulhados somos também alma e espírito.

Eu estava de passagem, aquela imagem sumiria do cenário assim que eu dobrasse a esquina. Mas, a mulher retrucou. Alto no mesmo tom. Senti-me intruso. Em pensamento, voltei ao mercado e revisitei as prateleiras imaginando o itinerário das mercadorias em movimento: campo, fábrica, estrada, Franca, porta, portão, parede, rua, marido e esposa lavando o carro da na calçada.

O carro sujo, na verdade, era bem velho. Para-choque torto, placa caindo, a lataria queimada pelo sol não tinha mais onde ser arranhada. Porque o homem tratou a sua mulher como se ela fosse uma lata velha?

Não parei sequer um segundo. Embora pública, era uma cena doméstica. Voltei pra casa com esse barulho na cabeça. Como não sou Georges Duby nem Philippe Ariès, ordenei o que senti como pude escrevendo um poema sobre coisas que são feitas para facilitar nossa vida e acabam por nos distanciar uns dos outros – depois eu conta...


 

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