Jardim da Infância

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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Trinta e duas alunas do Jardim de Infância do Grupo Escolar Coronel Francisco Martins, cuja professora era dona Izolina. Eu e Suzana éramos as duas loirinhas, as menores da turma. Nossa classe era a primeira do corredor esquerdo do prédio que, depois de seis décadas da foto, não mudou. Poucas construções duram tanto quanto a foto. Poucas pessoas duram tanto quanto esta construção. Várias escadas davam para o pátio e eram cenários de fotos tiradas por fotógrafos que não usavam máquinas de mão, mas aquelas que se apoiavam em pés, com acionador do disparo que fixava a imagem, que sofria longo processo de revelação e nem sempre vinham com nitidez desejada. A professora não era tia, era brava, impunha respeito, tínhamos hora e ritual para comer, levávamos lancheiras e ficávamos cobiçando o lanche umas das outras. Não, a professora não deixava trocar. Quem tivesse levado pão com banana, que o comesse; pão com goiabada, idem; pedaço de bolo, também. Antes de entrarmos, ela passava em revista cada aluna: sapatos limpos, meias imaculadas de brancas, laços de seda vermelha com bolinhas brancas, colocados no cabelo e debaixo da gola. Cabelos penteadíssimos. Exigia uniformes absolutamente iguais e dentro de padrão Omo de limpeza. Aliás, Omo não existia. As mães usavam sabão em pedra e coaravam as peças nos coaradores de bambu dos quintais de outrora. Mães sem dinheiro para o sabão do armazém, usavam o sabão de cinzas, habilmente preparados com a cinza dos fogões de lenha. (Tais sabões eram utilizados para o primeiro banho da molecada nas férias. Como apenas ruas do centro eram calçadas com paralelepípedos e ficavam livres da poeira e do barro, as ruas dos bairros quando tinham, tinham apenas calçadas pavimentadas. Chovia e a gente se lambuzava de barro. Antes de entrar em casa tinha o banho no tanque externo, com mangueira de jardim, o sabão de cinzas e buchas vegetais colhidas nas cercas de arame da vizinhança, cuja aplicação não doía, se não tivéssemos esfoladuras. Segunda parte do banho era na banheira, chuveiro elétrico e sabote Lifebuoy.) As amizades, se é que existiram pois vínhamos de classes sociais diferentes, se desfizeram. Mas no Jardim de Infância aprendi tudo que precisaria para a vida adulta:

“Compartilhe tudo. Obedeça regras. Não bata nos outros. Tirou do lugar? Reponha.. Desarrumou? Arrume. Não é seu? Não toque. Magoou alguém? Desculpe-se!. Lave as mãos antes de comer. Usou, aperte a descarga. Silêncio, biscoitos e leite, são muito bons para a saúde. Respeite todos. Estude, pense, desenhe, pinte, cante e dance, brinque e trabalhe, mesmo que pouquinho. Soneque, todas as tardes. Cuidado com o trânsito! As raízes das sementinhas viram plantas nos vasos e se desenvolvem para os lados, para baixo e a planta cresce para cima – ninguém sabe como ou porquê disso. Nós também somos misteriosos. Peixes, porquinhos, esquilos, a semente nos vasos – tudo morre. Nós também. Ao sair da escola para o mundo vá de mãos dadas e fique sempre de olho no companheiro.”

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