Quarentena 3

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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Olho no espelho, custo reconhecer-me, embora recém-barbeado. A culpa é do cabelo, semeando disfarce ou cabeleira de adolescente da geração de 1970.

Ando pela pequena casa imensa e só ouço a voz de meu chinelo.

Olho o silêncio da rua, lembranças acodem. Munida de tesoura enorme e de uma cuia, a mãe corta o cabelo do menino. O pai e a irmã mais velha fazem troça, apontando os caminhos de rato. Depois a criançada perambulava descalça pela lavoura de milho, à procura de melancia.

Pai e mãe não se preocupavam. Havia espaço bastante para a convivência de homens e cobras.

O tempo viajou em trem-de-ferro, de ônibus, e avião. Pela janelinha, viu o homem derrubar árvores, matar bichos, destruir o Jardim de Deus. Passou com lentidão o tempo. Mas passou.

E eu, através da vidraça, espio o silêncio que caminha lá fora.

Vou ao banheiro, lavo e lavo as mãos, temeroso de que uma cascavel chamada vírus se esgueire por debaixo da porta, por alguma fresta na janela.


 

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