Um perfume para a vida

Por: Angela Gasparetto

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Nesses tempos turbulentos, a nostalgia que é minha amiga intima sempre me acompanha.

E junto com ela quase sempre vêm os cheiros que nos remetem à vida que hoje é tão desejada, mas que nos aguarda lá fora.

Então, passando lustra-móveis em uma mesa da sala; aquele perfume remeteu-me à infância, a algo repleto daquela atmosfera de sábado à tarde, quando limpávamos a casa, e além do dever cumprido, preenchíamos a vida de uma esperança vaga e até febril.

 Para mim esse lustra-móveis tem cheiro de anos 70; casa limpa e flores à mesa. E tem cheiro de esperas.

O de esmaltes para unhas carrega o cheiro de anos de 60, quando nas tardes de sábado eu via as minhas irmãs arrumando as unhas; e às vezes ficava escondida ouvindo suas histórias sobre paqueras, não era crush não; se os veria, os olhares, um esbarrar de mãos, ou o topete à Elvis Presley.

O de alecrim tem cheiro de solenes “benzições”; o de velas de terço nas noites de inverno, ou dos murmúrios da partida dos entes queridos.

Já alfazema lembra-me perfumes obsoletos, pessoas soturnas e portas trancadas; exclusão.

Hortelã é a roça toda vindo ao meu encontro; erva doce é remédio para acalmar; funcho para dores de barriga e as margaridas têm perfumes apenas para casas espartanas como era a nossa.

Alecrim também me remete a um viver puro, desprovido de luxos proibidos e brincadeiras de roda à lua cheia.

Chá de erva-cidreira às vezes recorda-me tragédias, mas também solidariedade, de quando os amigos corriam à horta para fazer um chá e nos acalmar.

O cheiro de mexerica ponkan lembra-me carinho, pois, além de ganhá-las do nosso vizinho feirante, o Agostinho; o meu pai as colhia e trazia aos sábados da roça. E lembra-me daquela série “Os Waltons”, pois naquelas tardes de sábados eu a assistia chupando mexerica como se não houvesse amanhã.

E a vez que ganhei um Chanel nº 5, a surpresa foi tamanha porque o perfume trouxe-me de volta a minha infância inteira da Rua Floriano Peixoto com a minha avó Chica. E quando eu o usava, só conseguia visualizar os tubinhos amarelos da minha tia Maria, o laquê das minhas primas mais velhas, e os amigos interessantes do meu Tio Zuza...

Cheiros, perfumes, vida. São tantos. Nesse momento que vivemos uma pandemia, a bem dizer, de tragédias, essas recordações de hoje trouxeram-me um alento ao coração.

Porque se não podemos viver novos aromas, que possamos nos embriagar dos velhos; pois os perfumes que entrelaçam a nossa vida urgem lá fora e a esperança rumina aqui dentro. Que possamos perfumar esse nosso recolhimento atual.

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