Tupinambás

Por: Sônia Machiavelli

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Muito antes da chegada dos europeus os tupinambás habitavam a costa do Brasil. A guerra era parte importante na vida deles; e a antropofagia, ritual assustador para civilizados. Durante a colonização se aliaram aos franceses e lutaram contra os portugueses, na revolta que ficou conhecida como Confederação dos Tamoios.

 O primeiro relato sobre esses selvagens foi escrito pelo alemão Hans Staden, no livro Duas viagens ao Brasil. Feito prisioneiro em janeiro de 1554, ele permaneceu oito meses na aldeia do chefe Cunhambebe, em Ubatuba. Ali sofreu torturas e viveu num estado de constante temor de ser devorado. Mas acabou sendo salvo por franceses, numa troca que interessou aos índios. De volta à Europa, publicou em 1557 o livro citado, de enorme repercussão .

Antes de serem dizimados pelo vírus da varíola, a partir do contágio com os brancos, três tupinambás foram aprisionados e levados à França, em 1562, para exibição na Corte, então sediada em Rouen. Os alfabetizados, tendo lido o livro de Staden, traduzido para muitos idiomas, acorreram à cidade, onde se encontrava o rei Carlos IX. Havia grande excitação para conhecer aqueles seres pintados e emplumados. Junto aos índios encontrava-se um tradutor, escolhido entre os homens de Villegaignon, fundador da França Antártica no território que é hoje o Rio de Janeiro.

Entre as testemunhas dessa apresentação dos tupinambás aos cortesãos, estava Montaigne, o criador do gênero ensaio, na verdade crônicas sobre vida, seres, coisas, sentimentos. Pensador já famoso, ele escreverá a respeito dessa experiência singular no texto “Os Canibais”, que se tornará célebre e rodará o mundo em mais de vinte idiomas.

Com seu estilo enxuto e elegante, onde exibe visão irônica dos costumes, Montaigne anuncia o iluminismo ao defender a razão e criticar o fanatismo. Tendo comparado os selvagens, que comiam a carne assada do inimigo morto, aos cristãos que assavam gente viva nas fogueiras, faz opção pelos primeiros. Em seguida, ressalta um princípio, o da igualdade, ao comentar o ponto de vista dos tupinambás sobre o mundo civilizado: “Eles têm um tal jeito de linguagem que chamam os homens de “metades” uns dos outros (...) e tendo percebido que existiam entre nós homens repletos e empanturrados de toda espécie de regalias, e que suas metades estavam mendigando-lhes nas portas, descarnadas de fome e pobreza, achavam estranho como essas metades necessitadas podiam suportar tal injustiça (...)”.

Nesse momento de recolhimento que a Covid nos impõe, temos visto no noticiário como é vasto em nosso país o contingente dos que em filas batem às portas de bancos em busca dos 600 reais oferecidos pelo governo. É dinheiro para combater a fome durante o momento crítico que atravessamos. Desorientados e desalentados, fruto de séculos de desacertos, equívocos, má fé e corrupção dos que até aqui detiveram poder, eles clamam por olhares humanos, marcados por solidariedade, compaixão, acolhimento. E, sim. A palavra “tupinambá” significa “terra dos primeiros pais”. Espaço físico, social, emocional e mítico dos herdeiros. Todos nós, brasileiros, metades uns dos outros. 

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