O possível é o bastante

Por: Ligia Freitas

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A culpa já não me cabe mais

Nem a roupa, o guarda-roupa

Ou aquela carapuça de lady moça

Que eu vestia há dias atrás

 

A casa se tornou espelho do banheiro

Extravasa, jorra, excreta, incomoda

É ali que colocamos tudo pra fora

Jamais a nascente foi começo, meio e fim

 

Trancada a sete chaves

Vejo-me no ventre

Quando olho para o meu rebento

E ele me devolve um olhar em movimento

 

Sou vela acesa

Joelhos no chão

Crença no amanhã

Quanta coincidência vivermos o mesmo enigma do por vir

Entendo cada pontapé seu na minha costela

Os soluços fora de hora

Turbilhões à noite quando me calo

Na cama com a cabeça indo embora

 

Neste isolamento volto-me para dentro

Era preciso esse renascer de mim

Desse vai e vem incompleto

Que me resume a simplesmente SER

Distante do que eu era

Vivo a verdade nua e crua

Tal qual a cebola que me fez chorar

Hoje pela manhã enquanto preparava meu arroz com feijão

 

A cozinha não dava para o banheiro

Agora dá

Quebrei a parede de todos os cômodos

Tá tudo junto e misturado

Tal qual a vida mesmo

Que reflete no azulejo

Sujo

Sem álcool gel pra limpar

 

 

 

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