Cancelas

Por: Baltazar Gonçalves

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Conversamos por videochamada, ela disse que o mundo está mudando, nada será o mesmo depois da pandemia. Concordei, de fato está em processo uma mudança terrível. Mas ponderei, desde que o mundo é mundo tudo muda o tempo todo - o clima, meu gosto, sua percepção - as ruínas do coliseu em Roma testemunham o passado transformado enquanto radicais livres envelhecem nossa pele num processo de renovação diário.

Ela é citologista, eu historiador. Ela usa microscópio para ver o que o olho humano não repara, a vida intensa de partículas em constante mudança dentro da célula. Trabalha em ambiente controlado e normatizado de modo a assegurar que não ocorra influência externa que altere os resultados da observação. No que repara o historiador foi a pergunta que ela me fez em contrapartida.

Respondi, divagando o mais objetivo que pude, que apesar de ser uma ciência a História tem recantos de subjetividade. Mudanças lentas tendem a consolidar efeitos que aceitamos naturalmente como se o real fosse isso mesmo desde a gênese do conhecido, mudanças rápidas desconcertam nossa percepção. Talvez a espécie humana seja uma cultura de bactérias observada por Deus e nesse experimento o indivíduo perplexo não tivesse tempo de absorver ou atuar com precisão de laboratório no agora em ebulição. Ela riu.

Tentei acalmar os ânimos, a vida e o mundo não cabem no encontro de dois pontos num plano cartesiano. É verdade que essa pandemia sinaliza rupturas, rasgo evidente no tecido do real. Expostos, atordoados, experimentamos a realidade da fratura. Contudo, as mentalidades engolfadas na transformação abrupta das estruturas, como esta em curso, não mudam da noite para o dia.

Nossa conversa por vídeo chamada ficou chata, muito técnica. Somos amigos, a poesia nos uniu. No tempo dessa conversa, voltamos para o micro e o macrocosmo e nos distanciamos. O que nos une pode nos separar? O isolamento social orientado colocou essa tela entre nós como se fosse uma cancela de plasma. Depois de terminar a ligação me sentia em débito e, como se a poesia desse conta de todas as aulas de História, escrevi pra minha amiga citologista esse poema que agora compartilho com os leitores:
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CANCELA

a finalidade de uma cancela no pasto é controlar o trânsito do gado,
uma cancela também pode controlar o trânsito de pessoas e veículos.
cancela, portão e porteira são a mesma coisa,
invenção milenar que evoluiu pouco no tempo.

cancelas são comuns por todo lado.
existem as eletrônicas que respondem ao controle remoto
e as improvisadas rústicas engenhosas
fabricadas com o material que se tem à mão.
toda e qualquer cancela serve ao propósito de separar.

a vila franca do imperador adormece
no coração da cidade onde moro
separadas no tempo por um eclipse.

já reparou? contra o sol, flores de joá tornam-se mais lilases
e as trepadeiras do mato parecem ramas de maracujá.
aos pássaros que pousam na minha mão para a missa do por do sol
ajuntam insetos e dançamos cegos de alegria desse lado da cancela.


 

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