Perpétua

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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Casos de amor como aqueles, dos anos da metade do século passado, pouco antes, pouco depois, não existem mais. O cenário romântico da época era composto por filmes como Casablanca, A princesa e o plebeu, Laura, ...E o Vento Levou, Gilda, Rebeca, Farrapo Humano, Amar foi minha ruína, O fio da navalha para ficar apenas nestes títulos que terminavam, via de regra, com a difícil e penosa separação do par romântico. A vida imita a arte. Na velha Franca do Imperador, as comadres – e muitos compadres – comentavam à boca pequena os escândalos românticos e comportamentais da época. Nos poucos salões de barbeiros, cabeleireiras, manicures; nos grupinhos da Praça Nossa Senhora da Conceição, após a missa das dez na Igreja, que demoraria a ser elevada a Catedral, os assuntos versavam quase sempre sobre a dúvida da virgindade de algumas moçoilas casadoiras, o apressamento do casamento de outras garotas – geralmente as mais saídas, mais alegres, mais comunicativas. E, de longe, as mais bonitas... Escândalos recorrentes eram a passada de perna financeira em algumas figuras públicas por outras de igual status, a forma descarada e escancarada com que as amantes de políticos e coronéis do café vinham ao centro da cidade – moravam na periferia – para exibir jóias e adereços aos cidadãos e cidadãs comuns, ganhos na prática e exercício da mais velha das profissões. Paralelamente havia histórias de amor mal sucedidas, desavenças, distanciamentos forçados, frutos de discrepâncias pessoais, ou a clássica divergência e miopia diante de fatos sem importância, olhados com lentes de aumento da raiva e da imaturidade. Um desses casos era o de Perpétua e David. Ela, de família de fazendeiros, até que rica, atributo muito bem-vindo naquela época de escasseamento gradativo de baús antes recheados de títulos de posse de terra, jóias de família, bens materiais. Ele, o bonitão, já sem baú, sem títulos, sem terra, sem jóias, mas troféu valioso, para servir de enfeite no étagère da sala de jantar de qualquer família arrivista... Ela chorava e se desesperava diante dele e das amigas. Punha a mão na frente da boca e o acompanhava com o olhar por onde ele fosse. Ele a retribuía com gestos de complacência, frieza e distância, com olhar crítico e esgar facial que completava com riso sardônico... As amigas aconselhavam: larga mão, vai pra São Paulo, Rio de Janeiro, vai passear na Europa! Ela fincava o pé numa das colinas da cidade e continuava suas ladainhas e perseguições. Certa tarde, num dia de Santo Antônio, ao descer a rua onde morava, que ficava pouco distante da Matriz, estava com mamãe que abominava dependência feminina e encontramos Perpétua com estranho e aberto sorriso. Ela resplandecia com inusuais e incomuns sorriso e excitação. “Nossa, Pérpetua! Alguma novidade?”, perguntou-lhe minha mãe. “Sim, estou saindo da igreja, fiz um trato com Santo Antônio!” E completou: “Ele vai colocar David na minha vida, eu vou me casar com ele e em troca, oferecerei toda infelicidade e sofrimento que fizerem parte da minha vida de mulher dele.” Não deu certo. 

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