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Por: Sônia Machiavelli

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Faz muito tempo que a ideia de um vírus devastador povoa a imaginação de escritores. Isso torna óbvio o fato de que pestes diferentes ameaçaram inúmeras vezes a sobrevivência no planeta. A “Ilíada” (880 aC), do grego Homero, começa com um flagelo castigando os troianos. O “Decameron” (1330), de Giovani Bocaccio, é conjunto de contos narrados por jovens que se refugiam numa vila florentina para escapar da peste negra.

Daniel Defoe publica em 1670 “O diário do ano da praga”, sobre epidemia que matou cerca de 100 mil pessoas em Londres, cinco anos antes. Um dos gênios do sobrenatural, Allan Poe escreve “A máscara da morte vermelha”em 1839, a respeito de um príncipe e sua corte, confinados no palácio por conta de uma peste sem nome. Os cortesãos se divertem, enquanto o povo sofre e sucumbe. Mas uma noite, durante baile de máscaras, surge a figura de vermelho no salão. É a “indesejada das gentes”, segundo nosso Machado.

O século XX tem grandes títulos sobre o tema.“A Peste”, de Albert Camus, já comentado aqui.“Eu sou a lenda”, de Richard Matheson; “O enigma de Andrômeda”, de Michael Critchon;”Anjos na América”, de Tony Kusher - sobre a AIDS; “A dança d a morte”, de Stephen King- a respeito de uma América pós-apocalíptica; “Ensaio sobre a cegueira”, de José Saramago- romance que aborda uma doença contagiosa, que tira a visão de toda uma comunidade.“A doença como metáfora” é um ensaio de Susan Sontag a respeito das pandemias contemporâneas como “evidências de um mundo em que nada de importante é regional, local, limitado; em que tudo o que pode circular, o faz; e todo problema é ou está destinado a se tornar mundial.” Outros títulos que pretendo ler se essa quarentena se estender: “O Guia de Sobrevivência a Zumbis,” de Max Brooks;”Estação Onze”, de Emily Mandel ; “Canção do Sobrevivente,” de Paul Tremblay e “Clay’s Ark”, de Octavia Butler.

Livros que tratam de catástrofes pandêmicas trazem em seu bojo histórias que proporcionam uma catarse ao mostrar ao leitor maneiras de lidar com emoções fortes como medo, solidão, raiva, impotência, fragilidade, frustração, incapacidade de controle. Também revelam, pelo olhar do escritor, posições críticas (“A Peste”), históricas (“Decameron”), distópicas ( “A dança da morte”), filosóficas (“ Ensaio sobre a cegueira”), sociológicas (“A máscara da morte vermelha”) e outras tantas. Podem ainda desempenhar papel expressivo junto ao leitor que busca respostas à Covid-19. Vale a pena ler um desses textos para compreender melhor tantas emoções que vêm nos perturbando. A ficção, se não explica uma pandemia, ao menos oferece um sentido para a experiência que parece singular mas é vivida por todos.

Da lista que ofereço, deixei um livro para o fim: “Último Homem”, joia gótica cuja primeira edição é de 1826. A jovem Mary Shelley ,que já havia publicado “Frankstein”, descreve um planeta devastado pela peste no final do século 21. A humanidade vai se extinguindo. No final, o “último homem”, Lionel, tenta chegar à terra firme num pequeno barco e pensa em todos os livros que poderá ler nas bibliotecas vazias. Decide então que escreverá a sua história. Soa como linda homenagem à literatura e ao triunfo da vida.

Em tempo: o filme “Mary Shelley”, sobre a escritora do século XIX, está disponível no canal Netflix.


 

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